terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Alguém em especial..Pra mim .......

Deletar vc da minha vida?

(x)Sim ( )Não

Senha:

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Aguarde, carregando...
¦¦¦¦¦¦¦¦¦¦¦ 97%


~ERRO...

Impossível deletar o carinho que sinto por vc, arquivo muito grande no meu coração !!!

Te adoroO!!!




IGUINHO....pra vc ...Many.... te adoro pakas...

Ele não olha nos meus olhos,
ele vê meu coração...
Durante toda minha vida,
muitas pessoas passaram por mim,
dia após dia.
Mas somente algumas dessas pessoas,
ficarão para sempre em minha memória.

Essas pessoas são ditas amigas,
e as levarei para sempre em meu coração,
às vezes pelo simples fato de terem
cruzado meu caminho,
às vezes pelo simples fato de terem dito
uma única palavra de conforto quando eu precisei.
Às vezes por ter me dado um minuto de sua atenção,
e me ouvido falar de minhas angústias,
medos, vitórias, derrotas...

Às vezes por terem confiado em mim,
e me contado também seus problemas,
angústias, vitórias, derrotas...
Isso é ser amigo: é ouvir, é confiar, é amar.
E amigos de verdade,
ficam para sempre em nossos corações,
assim como as pegadas na alma, que são indestrutíveis.

À você meu amigo:
você é muito especial e importante para mim.
Eu te adoro muito.
Sua amizade para mim tem um valor enorme,
e nada que eu possa dizer à você,
pode ser tão especial ou mais significativo
do que sua amizade para mim.

"O amor que há numa grande amizade, é como a luz do dia...Clareia o pensamento;Anima o coração;E enche a vida de alegria.O valor que há numa grande amizade é tão caloroso e brilhante como o sol de verão a cada dia, a cada instante.O valor que há numa grande amizade significa mais do que as palavras podem dizer, porque uma amizade é um milagre uma benção, e uns dos milagres da minha vida foi ter conhecido você."

SEXO COM O DIABO ( contos macabros )


Poucos acontecimentos me causaram uma sensação tão dilacerante de tristeza e fatalidade como a impiedosa maldição que recaiu implacável sob aquela bela menina, a infeliz Daniele. Muitos simplórios insistem em crer que tudo não passou de algum terrível mal meramente orgânico, uma enfermidade desconhecida, de origem unicamente física. Todavia, não apresentam provas do que afirmam, nem mesmo indícios. Todos os exaustivos exames realizados não obtiveram o mínimo esclarecimento, e o caso permanece obscuramente inexplicável, pois nenhum possível agente patogênico foi encontrado no corpo de Daniele, nenhum de seus órgãos apresentava qualquer deficiência, no entanto, a menina enfraquecia cada vez mais...

Conheci muito bem a pobre Daniele. Melhor ainda, o que ocorreu com ela. Quando surgiu das trevas aquele demônio, a menina não tinha mais que 15 anos. Eu, quatro anos mais velho, estava absolutamente fascinado com sua beleza e expressão de ternura e inocência. Mais um passo, e cairia nas garras insanas da paixão. Mas, talvez, Daniele não fosse tão inocente quanto sugeria sua doce fisionomia. Estou firmemente convicto de que a demoníaca maldição foi atraída por sua própria vontade, como funesta conseqüência de seus terríveis e irrefreáveis desejos sexuais, os quais todas as noites a assaltavam até exaurirem miseravelmente sua energia vital. Sei de tudo, porque fui um observador assíduo de sua vida, queria conhecê-la a fundo. Fui a única testemunha da infernal cena. Minha atração pela menina era tão veemente que me utilizei de todos os meios ao meu alcance para retirar o véu de sua existência.

Posso afirmar com segurança que durante quase dois anos soube que a formosa e plena de vida Daniele deitava-se em seu leito, cobria-se com um lençol ou cobertor e principiava a acariciar seus seios e órgão genital durante prolongados minutos, ou seja, masturbava-se com uma tremenda volúpia sexual. Estando Daniele em plena adolescência e sendo ainda virgem, a energia sexual da menina encontrava-se em seu ápice, em seu esplendoroso e arrebatado afloramento. Percebiam-se as correntes energéticas percorrendo em fosforescente eletricidade todo o seu superexcitado organismo, incendiado pelo desejo sexual. Contudo, tal energia poderosa e incontrolável era todas as noites descarregada no ambiente penumbroso de seu quarto através da masturbação. Sua energia sexual, quando ainda em seu corpo físico, antes do orgasmo, oferecia aos olhos uma fulgurante visão que brilhava deslumbrantemente nos canais etéricos de seu formoso organismo. Entretanto, uma vez jorrada no ambiente externo pelo orgasmo, aquela cintilante energia multicolorida tornava-se opaca, avermelhada e sanguinolenta, às vezes pendendo para o negro. Para onde iria toda aquela energia? De alguma forma ela seria aproveitada... Lembremos da célebre sentença de Lavoisier: “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. A energia se transforma, como a energia sexual de Daniele, que se metamorfoseou pela infrene masturbação. De límpida e fulgurante, tornou-se escabrosa e pestilenta.
A energia alastrava-se pelo ambiente astral de seu quarto, e este, com o passar dos dias e com a repetição dos atos masturbatórios, foi acumulando toda aquela energia sexual desperdiçada. Foi acumulando, até que, em certa noite tenebrosa, que ainda sinto calafrios ao recordá-la, uma negra e espantosa presença diabólica penetrou pela porta de seu quarto... Irradiavam-se pestilências e malignidades da coluna vertebral visível daquela coisa. E ela foi lentamente sugando através de asquerosos tentáculos membranosos a densidade energética ali presente.

Aquilo era como um repulsivo espectro que flutuava abjetamente pelo ar. Tinha olhos amarelados e doentios, arregalados e com veias proeminentes. Arrastava uma imensa cauda imunda e, na cabeça, apresentava um par de orelhas desproporcionais e repugnantes que balouçavam constantemente. Sua face envelhecida e impregnada de furúnculos, com um nariz de formato suíno, causava uma repulsão e um medo arrepiantes. Suas mãos escamosas eram enormes e projetadas para frente, com unhas curtas e pontiagudas, de uma nojenta cor arroxeada. Aquela coisa esvaziou o ambiente, sorvendo com repelente prazer a energia sexual despejada na atmosfera por Daniele. Minha impressão negativa foi tamanha que me retirei do local e somente a ele retornei uma semana depois. Quando o fiz, meu horror foi ainda maior, ao contemplar, no aposento iluminado somente pelo luar, aquele ser diabólico sobre o corpo de Daniele, realizando um revoltante ato sexual com a menina. Esta aparentava sentir um imenso prazer, porém, seguramente, não tinha consciência do imundo demônio que estava sobre ela. Para Daniele, tudo não passava de masturbação. No entanto, o hediondo diabo, astralmente, aproveitava-se de forma perversa da assombrosa luxúria da adolescente, drenando toda sua energia vital e assim mantendo a sua ominosa existência.

Após presenciar tão chocante cena, não tive mais ímpetos de à noite visitar minha admirada menina, tamanha era minha perturbação. Dias depois, caminhando abatido pelas ruas, ocorreu-me o feliz incidente de encontrar Daniele. Como nos conhecíamos, chamei-a para termos uma breve conversa. Disse que a achei um tanto magra e desanimada e perguntei se estava sentindo-se bem. A menina, entristecida, macilenta e com fundas olheiras, respondeu-me que fisicamente sim, mas não psicologicamente. Declarou que sofria de horríveis pesadelos. Em um deles, disse-me que via espiar furtivamente pela porta de seu quarto uma horripilante e repulsiva velha de aparência inominável. A velha ria malignamente de Daniele, em um riso torpe e encatarrado; em seguida, piscava seus enormes olhos dilatados e se ocultava atrás da parede. Daniele contou-me ainda que ouvia seus passos arrastados distanciarem-se lentamente de seu quarto. Então se acordava em estado de indizível pavor. Tais sonhos repetiam-se freqüentemente. A menina narrou-me também que certo dia, durante o final da tarde, viu, sentado sobre um muro, um homem estranho e muito feio que a olhava fixamente e apontava-lhe o dedo indicador como em um sinal de advertência. Então o homem pulou do muro, sorriu sinistramente e desapareceu de maneira furtiva. Ao dizer isso, vi que os olhos ainda belos de Daniele encheram-se de lágrimas. Senti uma cortante piedade da menina, mas não sabia o que fazer, nem mesmo o que dizer a ela. Despediu-se rápida e nervosamente, e eu ali permaneci como se minha alma estivesse aniquilada.

Meses depois, retornei ao seu quarto e aguardei alguns instantes, enquanto Daniele lia em sua cama. Minutos depois apagou a luz e principiou a se masturbar sob as cobertas. Não demorou muito para que aquele demônio surgisse vagando pela porta e lentamente flutuasse de forma abjeta sobre a adolescente, efetuando outra nauseante relação sexual, explorando a inconsciência da menina. Não mais pude permanecer diante daquela visão deprimente e voltei à minha casa. Passadas algumas semanas, encontrei outra vez Daniele na rua. Estava verdadeiramente acabada, esquelética, como que corroída por uma peste letal. Sua beleza murchara, secara, sua vida esvaí-se como o vinho que escorre de uma taça quebrada. Dias depois, fui ao velório de Daniele.

Semanas após seu falecimento, estando meu corpo adormecido e meu espírito vagueando pela dimensão astral (que era como eu visitava Daniele em seu quarto), tive um encontro com um perverso homem... Possuía uma bela aparência e segurava um cálice que julguei contivesse vinho. Estas foram algumas das palavras que o sinistro homem me dirigiu:
- Pensas que bebo vinho? Não. Bebo sangue, bebo a vida que o sangue espiritualmente contém. Assim mantenho essa aparência física através dos séculos, que não é a real, mas é com ela que me apresento imaginativamente às mulheres, entre elas a tua querida Daniele... Certamente, vira-me na forma real tendo relações com ela, não? Pois a menina via-me em sua mente com um aspecto bem diferente... Ah, suguei toda a sua energia, mais do que normalmente faço, pois ela era muito receptiva. É claro que com a maioria das mulheres, não chego a matá-las, dreno um pouco de energia, e isso é tudo. O máximo que pode ocorrer é elas terem alguma doença, ou serem infelizes no amor, pois não poderão amar devidamente, se é que me entendes... Logicamente, não sou o único a realizar tais ações, tenho colegas, masculinos e femininos. Minhas colegas femininas, é óbvio, sugam os homens. Atuamos não só em masturbadores, mas também em relações sexuais feitas sem nenhum sentimento, sem amor. Ah, quantos belos rostinhos nós já secamos... mesmo que lenta, bem lentamente, quase imperceptivelmente... Mas o que é isso? Não, não chores pela Daniele! Ah, ah, ah, ah, ah!

O POÇO ( contos macabros )


Chovia a cântaros na noite em que joguei minha esposa nas águas frias e escuras do poço de minha mansão. O vento sinistro da tormenta açoitava como um gélido flagelo minhas roupas encharcadas enquanto eu a ouvia agonizar afogando-se em algum ponto em que as trevas já impossibilitavam a visão.

Depois entrei aliviado em minha residência e tudo parecia ter adquirido uma coloração diferente do cinzento ao qual eu estava já tão habituado. Olhei para todos os lados e aquele novo colorido me fez lembrar os tempos de infância e de liberdade. As lágrimas escorreram por meu rosto onde um inelutável sorriso se estampara sem que nem ao menos pudesse percebê-lo antes de deparar-me, inesperadamente surpreso, com o imenso espelho na parede esquerda da sala. Ali, pela primeira vez em vinte anos, vi a minha própria imagem refletida sem que sobre ela restasse a sombra medonha da criatura odiosa com quem eu havia contraído um matrimônio peçonhento e trágico.Felizmente a esta tragédia eu havia dado um ponto final esta noite!

Mais tarde, já alta madrugada, subi ao quarto principal; deitei-me na imensa cama de casal e não pude conter as gargalhadas por senti-la tão espaçosa, tão definitivamente minha!!! Era exatamente isso que eu ansiara por tanto tempo: espaço, privacidade, silencio. Oh, o silêncio era tão precioso para mim! E aquela bruxa horrenda nunca o respeitara.

Agora respeita! Coberta que está, por litros e litros de água fria e escura, no fundo do poço onde a joguei pois, com exceção do leve ruído dos galhos das árvores roçando as paredes do lado de fora da casa, movidos pela força do vento, tudo mais é quietude.

Quando despertei mais tarde nem mesmo percebera que adormecera e, ao olhar em meu relógio de pulso, descobri que passava um pouco das três da manhã. De início fiquei aturdido tentando imaginar o que me arrancara de um sono reconfortante como há muito não tinha. Depois percebi que o vento lá fora ainda estava furioso pois os fortes galhos das árvores ao redor da casa continuavam a arranhar e forçar portas e paredes.

Decidi levantar-me e ir até a janela desfrutar um pouco da paisagem de minha propriedade sob aquela chuva torrencial, pois paisagens noturnas, sob tormenta ou nevoeiro, sempre me agradaram com seus aspectos lúgubres. Ao abrir as cortinas sobre a vidraça que era a janela de meu quarto, no entanto, tive uma enorme e perturbadora surpresa, pois, apesar de ainda estar ouvindo o uivo do vento e o arranhar dos galhos nas paredes, toda a chuva já passara e o céu estava límpido e carregado de estrelas.

No entanto, os barulhos continuavam e de repente assumiram um novo aspecto. Agora que a convicção da precipitação como causadora não mais existia, minha mente abrira um novo leque de possibilidades e o gemido que ouvia não era mais do vento e tampouco os arranhões nas paredes estavam do lado de FORA da casa. Pelo contrário: pareciam vir subindo rapidamente as escadas para o segundo andar onde eu estava.

Fiquei parado, paralisado, na sacada de meu quarto e senti minhas pernas dobrarem quando, do corredor, em um ponto bem em frente à porta, veio um uivo pavoroso que era um misto de dor, medo e ódio; um lamento que era animal, mas, antes de tudo, continha uma humanidade desesperada. Caí de joelhos pedindo à providência que me poupasse daquele horror, fosse ele o que fosse, e baixei a cabeça com os olhos fechados em alguma espécie de oração mal articulada.

Neste momento ouvi a porta do quarto ceder sob uma incrível pressão e em seguida uma maligna rajada de vento quente invadiu o ambiente. No final eu não podia me mover; os grilhões do medo me haviam aprisionado para além das possibilidades humanas, pois não era humano aquilo que entrou em minha casa aquela noite. Em meio ao calor que me atingia ainda tive duas sensações antes de desmaiar: a de um tênue cheiro de um perfume, que me era bastante conhecido dos tempos de casado, e a de que jogavam em mim, de um ponto mergulhado na escuridão a minha frente, gotas de alguma água fria e pegajosa. No entanto o que me tirou os sentidos não foi, de maneira alguma, uma impressão e sim uma percepção bem concreta, pois senti quando alguma fera diabólica, com um hálito frio e fétido, se abaixou sobre mim e me sussurrou no ouvido:

"Maldito, tu nunca mais dormirás de novo!”

ADOTANDO O DEMÔNIO ( contos macabros )


Desde criança, eu sempre quis ter um filho, ou uma filha. Vivia brincando com minhas bonecas, amando-as. Então fui crescendo e crescendo, tive meu primeiro namorado aos 19 anos. Ele se chamava Christopher Brown, fora uma das piores decepções que tive em minha vida.

No dia oito de agosto de 1972, três meses depois do inicio do nosso namoro, vi o desgraçado aos beijos com uma loira magrela e oxigenada. Ah...Dei um escândalo daqueles; depois me arrependi. Aquele traidor não merecia consideração alguma.

Aos 30 anos, me casei com o homem da minha vida. Paul Edward, que veio para a Califórnia 30 dias depois da minha separação com o Christopher.

Por vários meses tentamos ter nosso primeiro filho, mas... Nada.Resolvemos, então, ir ao médico; todos aqueles meses e nem sinal de um embrião... era muito estranho.

O doutor se apresentou como John Lee, um chinês vindo da capital de seu país de origem. Pelo que percebemos, aquele homem falava inglês muito bem.Concluímos então que sua estada junto a nossa nação já durava vários anos.

-Paul, Paola...- Ele disse, preocupado, olhando de um para o outro. – Nunca me esquecerei daquele dia, pois foi a chave que desencadeou todo o sofrimento que passo hoje.-Eu sinto muito...Ambos são estéreis.

Meu mundo caiu, toda uma vida sonhando em ter um filho tinha sido desmoronada.Mas o que ele falou depois ascendeu uma nova chama em meu coração.Hoje eu vejo que tomei a pior decisão da minha vida, mas...Como eu ia saber?

-Mas há uma solução.- O sorriso embutido em seu rosto demonstrava grande felicidade.-Porque vocês não adotam uma criança?

Eu e meu marido nos entreolhamos.Sim, adotar, realmente queríamos uma criança.

-Podemos, querido?-Perguntei.

Ele assentiu com a cabeça, mostrando seus dentes impecáveis naquele sorriso que paralisava.

À noite, conversamos e decidimos que seria melhor adotarmos uma criança um pouco crescida, entre sete e nove anos. Pois nos pouparia das trocas de fraldas e de muitas outras desvantagens.

No dia seguinte chegamos, pela manhã, ao orfanato San Arthur. Fomos convidados a entrar pelo diretor da instituição, David Andersom:

-Sejam bem vindos.-Ele disse.

Ele nos mostrou várias crianças, mas nenhuma nos encantou mais do que a última que nossos olhos avistaram. Estava jogando xadrez, sozinho, na área de lazer. Era um garotinho loiro e com lindos olhos azuis, além de estar muito bem vestido.

-Como ele se chama?-Perguntei ao diretor.

Ele me olhou com uma cara de que essa não era a escolha correta a ser tomada.

-Seu...Nome é Lúcius Damon .-Ele puxou meu braço.-Mas venham, temos mais crianças por aqui.

Puxei o meu membro de volta.

-Quero o Lúcius.-Eu disse, encaminhando-me para conversar com o garoto.Enquanto isso, o Paul acertava a adoção com o diretor Andersom.

- Oi, Lúcius.-Eu disse.

-Oi.; -Ele respondeu. -A senhora é muito bonita. Fiquei corada.

-Ah, muito obrigada.E você é um garotinho muito esperto, sabia?

Ele apenas sorriu, grato.

-Então, o que tenho que assinar?-Perguntou Paul ao diretor Andersom, enquanto eu dialogava com a criança.

-Tem certeza de que essa é a decisão correta, senhor?-Perguntou o diretor.-

Temos muitas crianças que...

-Tenho.Se for o que minha mulher quer, é o que eu quero também.

Estava feito, dentro de um certo tempo estaríamos com o garoto em casa.

-Esse é o seu quarto.-Eu lhe mostrei.

-Muito obrigado, mãe.Posso lhe chamar de mãe, não é?

Soltei um riso, e não nego que senti vontade de chorar. -Claro que pode...Meu filho.

O Lúcius era muito mais apegado comigo, e quase não falava com o Paul, que fazia a mesma coisa.

Um dia eu me acordei, assustada, ainda de noite, e senti falta do meu marido na cama.Ao descer a escada para ver onde ele estava, vi a pior coisa da minha vida.

Paul estava pendurado, com uma corda no pescoço... “Sem as mãos, nem os pés”.Lúcius estava ao seu lado.

-Já que o papai não fala comigo, então vi que ele não tinha utilidade para nada.-Foram as palavras que saíram da boquinha dele.

-O-o-o que v-você fez?Isso é uma brincadeira, não é?-Em resposta, apenas o barulho do vento, que entrava pela janela.-R-E-S-P-O-N-D-A!

Ele me olhou com uma cara assustada.

-Mamãe, você está me dando medo.Você não gosta mais de mim? Largada no chão, junto ao homem que amava, eu respondi:

-Você não merece ser amado nem pelo Diabo.ESTÁ ME OUVINDO?!NEM PELO D-I-A-B-O!

-Mamãe?Então é assim?Pois então você merece a mesma C-O-I-S-A!-Disse ele, mostrando a faca que segurava e correndo como um louco em minha direção.Estava descontrolado, e eu também.Mas, mesmo assim, tive tempo de raciocinar, me desviar e enfiar aquela mesma faca na barriga dele, do filho de Satanás.

Logo depois, pus-me a chorar ajoelhada, como uma louca que perdeu tudo. Posteriormente, o barulho da polícia foi ouvido.Eles entraram e viram os dois corpos mortos.

Acusaram-me de assassina e, hoje, 32 anos depois...Ainda continuo presa aqui, nessa sela imunda. Mas não fui eu, digo a vocês, chorando: “Foi o filho do diabo”.

A VINGANÇA DE EMILY MACLAUREN ( contos macabros)


- Não, eu já me cansei – disse o delegado furioso, incrédulo, e porque não dizer aterrorizado, diante do depoimento surpreendente de Thomas Mclauren, irmão caçula de Emily Mclauren, jovem brutalmente assassinada, depois de ser estuprada e espancada por Richard Hewitt, Daniel Cooper e David Williams, esses que, até então, se diziam amigos da família Mclauren.

Richard Hewitt telefonou para a jovem Emily Mclauren, convidando-a à sua residência, a fim de ajudá-lo em um trabalho escolar.

A pobre moça foi até a casa de Richard sem saber que estava sendo atraída para uma terrível armadilha. Chegando lá, Richard, juntamente com seus amigos Daniel Cooper e David Williams, violentaram a pobre moça, espancaram-na e mataram-na covardemente, a facadas.

Depois dessa abominável atrocidade, Richard e os amigos enterraram o corpo em um vale próximo ao local do crime.

Passaram-se dias, semanas e meses, mas ninguém sabia do paradeiro de Emily Mclauren. A polícia foi acionada e começou a investigar o caso, procurando as pessoas que estiveram por último com Emily Mclauren.

Uma caravana policial foi à casa de Richard, mas ele, dissimuladamente, e com uma frieza implacável, respondeu todas as perguntas dos policiais, negando qualquer participação no desaparecimento da jovem, embora tenha sido a última pessoa com quem Emily Mclauren estivera antes de desaparecer.

- Não, senhores - disse Richard -, Emily ajudou-me no trabalho e saiu dizendo que iria para casa.

Certo dia, uma intensa multidão encontrava-se no vale. Crianças, que, por ali brincavam, perceberam uma parte fofa na terra e, mal começaram a cavar, não demorou muito a aparecer primeiro um anel de prata com uma mão já em adiantado estado de putrefação.

A polícia foi acionada e, juntamente com a equipe de legistas, recolheu o cadáver para averiguarem se este, realmente, era o corpo da jovem desaparecida. O laudo médico confirmou: sim, aquele era mesmo o corpo de Emily Mclauren, que antes de ser esfaqueada fora seriamente molestada.

O passo seguinte era, agora, encontrar os criminosos responsáveis por tamanha desgraça. Novamente uma caravana policial foi à casa de Richard Hewitt para um interrogatório, já que era ele o principal suspeito do assassinato.

Um tanto inseguro com a pressão dos policiais, Richard confessou ser o responsável pelo assassinato de Emily Mclauren, tendo como cúmplices seus amigos Daniel Cooper e David Williams.

Os três jovens foram presos e ficaram detidos até o dia do julgamento. Mas, devido a falta de provas e à eficácia do advogado de defesa, eles foram absolvidos de toda a culpa, fato que revoltou toda aquela cidade. Como era possível que monstros e facínoras daquela espécie ficassem em liberdade?

Os anos passaram e, ninguém lembrava mais desse crime, inclusive os próprios assassinos. Foi quando telefonemas e bilhetes com terríveis ameaças em nome de Emily Mclauren começaram a tirar o sono dos três jovens. As ameaças eram terríveis e sempre diziam:

- A sua hora está chegando, você não perde por esperar, eu não me esqueci de você e nem de seus amigos.

Os três rapazes, então, reuniram-se em um bar para tratar do assunto.

Apavorado, Richard dizia para os amigos:

- Eu recebo estas ameaças o tempo inteiro. Seja quem for, está tentando nos assustar. É melhor tomarmos muito cuidado. – Que tal irmos até a policia?

- Ficou louco Richard!? – Disse David.

- Vamos até a polícia dizer para o delegado que estamos sendo ameaçados por Emily Mclauren, a garota que matamos há tantos anos atrás? Eles nunca iriam acreditar.

- Eu concordo. – Disse Daniel. - O melhor que temos a fazer é não comentarmos este assunto com ninguém e, principalmente, tomarmos todo o cuidado possível.

Transcorreram-se dias e nenhum dos jovens receberam mais ameaças. Eles já nem se lembravam mais deste fato.

Foi quando o inesperado aconteceu: Primeiro, David sumiu sem deixar rastro, deixando Richard e Daniel apavorados.

Em seguida, foi a vez de Daniel, que também sumiu como se fosse tragado pela terra. E por fim, foi a vez de Richard.

A polícia novamente foi acionada, mas, desta vez, o caso ainda era pior que o de Emily Mclauren, porque o autor dos desaparecimentos não deixou pistas. Depois de muitas investigações e sacrifícios, a polícia encontrou os despojos dos rapazes no porão da casa de Emily Mclauren. E o pior é que todas as provas e indícios do crime caíam sobre o irmão caçula de Emily Mclauren - Thomas Mclauren - que foi levado para a delegacia e agora prestava depoimento.

-Senhor Thomas Mclauren, o senhor é o principal suspeito do assassinato desses três jovens. Todos os indícios apontam para o senhor. A quem o senhor está tentando enganar com esta história? O senhor acha mesmo que eu vou acreditar no absurdo que o espírito de sua irmã o obrigou a matar esses jovens, clamando por vingança? . – Indagou o delegado.

- Eu vou repetir a história outra vez doutor. – Disse Thomas Mclauren. Primeiro, tudo o que fiz foi por medo e obrigado pelo espírito de minha irmã Emily Mclauren. Tudo começou três meses após seu assassinato. Passei a ter pesadelos com minha irmã. implorando por vingança contra Richard, Daniel e David. A princípio eu não dei tanta importância, mas os pesadelos começaram a ser mais terríveis e constantes. Certa noite, ao acordar de um pesadelo apavorante... eu não pude acreditar, no entanto, não estava sonhando! Era real, estava ali bem à minha frente o espírito de minha irmã, clamando:

‘ - Vingança... vingança...vingança!’

‘Tomei coragem e perguntei por que ela estava fazendo isso comigo. E ela respondeu:

‘- Thomas, meu irmão, você precisa se vingar daqueles assassinos para defender minha honra e fazer justiça; caso você não o faça, eu não sairei jamais de seus pesadelos.’

‘Foi então que decidi colocar esse plano macabro em ação. Comecei a dar telefonemas e escrever bilhetes ameaçando os rapazes em nome de minha saudosa irmã. Era já madrugada de sábado para domingo quando seqüestrei David. Não tive muita dificuldade, pois ele voltava de uma boate muito embriagado e não ofereceu a mínima resistência. Outro fato que facilitou as coisas foi me sentir possuído por estranha força. Sei lá, sentia-me como se alma saísse do corpo para dar espaço a outra. O cativeiro das vítimas era o porão de nossa casa, onde agrilhoei David, completamente nu e amordaçado, em dois ganchos fixados na parede até passar o efeito do álcool. Grande parte da embriaguez de David já havia passado quando senti novamente a estranha força apoderar-se do meu corpo. Eu tentava em vão lutar contra ela, mas era impossível. Peguei o estilete e arranquei friamente os olhos de David, que, mal podendo se mexer, contorcia-se e gritava acorrentado na parede. Não satisfeito com tamanha maldade, peguei a tesoura de jardineiro e cortei bem devagarinho seus dois testículos. Um gemido terrível e abafado ecoou naquele lugar. Deixei-o nesse estado durante três dias e, quando voltei, pude ver que a vítima agonizava em um estado de semiconsciência. Foi quando resolvi acabar com a agonia da vítima: peguei o facão e passei sutilmente na garganta de David, que ainda tentou emitir algum som, antes de morrer.

‘- Pronto! Um já foi. Só faltam dois: o Daniel e o Richard.

‘Para atrair esses outros dois à vingança de minha irmã Emily, bastou dizer, a cada um, que o outro se encontrava escondido em minha casa e precisava falar-lhe, porque assim estariam se protegendo daquela estranha ameaça. Telefonei para Daniel, dizendo que David queria falar com ele em minha casa, mas que não avisasse Richard, para não atrapalhar os planos. Toca a campainha e abro a porta, era Daniel, que queria ver David. Então eu disse:

‘- Por aqui, ele está esperando por você escondido no porão.

‘Sem desconfiar de nada, o ingênuo Daniel seguiu-me até o porão. Abri a porta e disse:

‘ - Lá embaixo!

‘Mal David deu as costas, outra vez a estranha força tomara conta de meu ser e empurrei com toda a força o pobre Daniel escada abaixo, que caiu inconsciente. Ao acordar, Daniel encontrava-se amordaçado e algemado com as mãos pra trás em uma cadeira. Mesmo tonto pela queda, viu o cadáver já em adiantado estado de decomposição do amigo David. Eu podia ver o terror nos olhos de Daniel, mas tinha que executar a vingança de Emily. Foi quando novamente senti a força estranha tomar conta de meu ser. Tirei os sapatos de Daniel e, com um torquês, comecei lentamente a arrancar as unhas de seus pés. Ele começou a gemer e todos os músculos de seu corpo vibravam. Foi quando me veio em mente fazer uma forma diferente de escalpo: em vez de só arrancar o couro cabeludo, arrancaria da parte do pescoço para cima. Apanhei o escalpelo e fiz um corte superficial em torno da pele do pescoço, arrancando-a bruscamente, e deixando Daniel em carne viva, mas somente do pescoço para cima. Com a intenção de vê-lo sofrer um pouco mais antes de matá-lo, joguei sal grosso nas partes que eu havia lesado. Contorceu-se todo, até ficar imóvel, o infeliz. Finalmente, eu estava satisfeito. Acho que já o fizera-o sofrer demais. Então, peguei um punhal e finquei-o em seu coração. Percebi um último suspiro. Eu já tinha acabado com dois dos assassinos da minha irmã, só faltava pegar o Richard. Ah! Como este me deu trabalho, resistiu e lutou até o último momento. Fui pessoalmente até a casa de Richard dizer que David e Daniel encontravam-se em minha residência e precisavam falar com ele, porque tinham descoberto quem fazia as ameaças em nome da minha irmã. Usei a mesma tática que usei com os outros, conduzi-o até a entrada do porão e abri a porta.

‘- Eles estão lá embaixo. – Disse eu.’

‘Senti novamente a estranha força de que já falei, e, quando Richard percebeu que eu iria empurrá-lo, segurou-me pelo braço e ambos rolamos escada abaixo. Trocamos vários socos e pontapés, mas Richard estava em desvantagem, afinal, ele não conhecia o ambiente, enquanto eu conhecia cada canto daquele porão. Foi um cruzado de direita certeiro em meu rosto que quase me levou a nocaute. Apavorado, Richard ainda chegou a ver os corpos dos amigos torturados e mortos por mim. Completamente desorientado e machucado em razão da luta, ele tentou escapar, subindo pela escada do porão; mas teve a infelicidade de torcer o tornozelo e rolar escada abaixo outra vez. Rapidamente, peguei o machado e, com um golpe certeiro, decapitei seu braço direito. Banhado de sangue e berrando alto, ele ainda ofereceu resistência. Desferi outra machadada que agora decepou o antebraço esquerdo. Por alguns instantes, ele ficou ali imóvel, mergulhado em sangue. Olhei-o fixamente e disse:

‘- Esta é a vingança de minha irmã, Richard. - Esta é a vingança de Emily Mclauren.’

‘Com um olhar hostil, a voz trêmula e sussurrante, ele disse:

‘- Pro inferno você e a vagabunda da sua irmã.’

‘O ódio tomou conta do meu ser, a força estranha, que me movia a fazer aquelas barbaridades, manifestava-se agora de forma mais intensa. Peguei o martelo e desferi-lhe um golpe na boca que lhe arrebentou toda a arcada dentária. Não satisfeito, tirei do bolso uma navalha e cortei-lhe as duas orelhas e, em seguida, o nariz.

‘ - Sangra... sangra, maldito!’

E por fim, para dar cabo à vingança de minha irmã, apanhei o machado e dei um golpe fatal na cabeça daquela figura semimorta. Terminada minha tarefa, sentei no degrau da escada e fiquei em silêncio. Foi quando ouvi o chamado de minha irmã:

‘- Thomas! Thomas!’

‘Apareceu feliz e orgulhosa à minha frente e disse:

‘ - Eu agora posso ir em paz... Obrigada meu, irmão. Adeus!

‘E isso é tudo, delegado’.

- É uma história em tanto senhor Thomas Mclauren; contudo, muito difícil de acreditar. – Disse o delegado. Guardas! Guardas! Podem levá-lo para a cela.

PESADELO ( contos macabros )


Noite passada sonhei com uma invasão de alienígenas. Vi milhões de naves, pequeninas e gigantescas, avançando por sobre os prédios de uma grande cidade adormecida. De algum ponto de uma região rural em que me encontrava, sentia-me impossibilitado de auxiliar quem quer que fosse, meus entes queridos, meus amigos, meus inimigos. Tudo para mim agora se acabava na visão daquelas luzes multicores oscilando por sobre os campos longínquos abaixo de um céu revolto de tempestade. Uma tristeza tão profunda se apossara de mim que o peso em meu peito quase chegava a ser ainda maior que o medo da violência que parecia se avizinhar.

Com lágrimas em meus olhos corri por uma estrada deserta que cortava extensa e sombria região de fazendas antigas e silentes e, à falta de qualquer avistamento de alguma criatura humana, meu corpo tremeu como o de uma criança perdida no escuro de seu quarto quando lá fora o vento açoita os galhos de alguma árvore ancestral que lança sombras como diabos dançantes nas vidraças. Do horizonte chegava aos meus ouvidos como que o zumbido de algum engenho demoníaco misturado aos lamentos dos primeiros homens e mulheres massacrados pelas intenções que se apoderavam da terra. Senti o frio da madrugada ardendo em meus pulmões enquanto continuava avançando por tamanha escuridão solitária, e então me chegou às narinas o hediondo odor adocicado de algum tipo de carne escusa que queimavam ao longe. Junto a tudo, como que para piorar ainda mais meu horror, havia a fina chuva que caia e que tornava o mundo ainda mais soturno e terrível.

A estrada parecia não ter fim e minha exposição naquele lugar aberto colocava cada vez mais minha vida em risco. Eu, porém, apenas conseguia pensar naqueles que me eram caros e que, misteriosamente, naquele momento, se encontravam longe de mim. Meus pensamentos me faziam avançar cada vez mais rápido a despeito das possibilidades de meu corpo que já começavam a me abandonar. Em minha mente via aqueles veículos alados, discos voadores prateados e cinzas, atacando impiedosamente os lugares que me eram caros pelos quais pareciam ter uma nefanda predileção; e contra tudo o que eu mais amava eles incidiam com fúria titânica. Era como uma perseguição cósmica; como se aqueles inimigos houvessem saltado de seu porão no universo para liquidarem especificamente comigo e, em meus loucos devaneios, até mesmo suas caras repuxadas se assemelhavam à minha enquanto apontavam suas estranhas armas para os meus familiares.

Alucinado corri e corri por aquela estrada escura e as cinzas dos mortos da terra me cobriam as vestes ensopadas. Por todos os lugares via agora os executores dos homens. Podia enxergá-los saindo de detrás das árvores que margeavam meu caminho. Soube então, agora mais do que nunca, que finalmente estava só no mundo e a mortificação desta vez me dominou por completo fazendo-me dobrar os joelhos e desabar sobre o asfalto úmido embaixo de meus pés.

Prostrado fiquei no meio daquele caminho que era antes um solitário corredor de campos, fazendas e matas longínquas, mas que agora fervilhava com a presença ominosa de seres metade pássaro, metade peixe. Dominado por um medo mortal, curvei minha cabeça num desesperado sinal de submissão pelo qual talvez tivesse minha vida poupada. Depois de alguns minutos uma daquelas coisas "peixe-pássaro" se aproximou de mim flutuando num uniforme translúcido que deixava a vista sua pele flácida e asquerosa. Ela me olhou e tocou-me com uma de suas mãos... Ou... Patas. Depois falou qualquer coisa com os outros que nos rodeavam e então, ó agonia minha, todas aquelas bestas começaram a rir de mim e apontar-me com suas garras encarquilhadas.

No momento seguinte, todos, de uma só vez, desapareceram. E todo o som e toda a cinza se escoaram junto de forma que tudo voltou a estar imerso em silêncio e calma como estivera antes, em seus dias comuns. Como se nada daquilo houvesse existido, me encontrei só novamente no meio da estrada. Mas um sentimento esmagador de inquietação começava a me dominar para além de tudo o que eu já experimentara até então.

Calado e atento avancei para a cidade e, por onde passei, mesmo depois do amanhecer, jamais avistei outra presença que não fosse a da minha própria sombra se arrastando atrás de mim. Não restara mais ninguém em todos os lugares que visitei e, nos anos seguintes, em minha triste solidão, me aventurei por todos os recantos que me eram humanamente possíveis sem o auxílio de um automóvel; visto que todas as máquinas estavam paradas, queimadas, mortas como o resto do mundo. Porém, suas carcaças continuavam intactas brilhando ao sol como vi em uma enorme rodovia abandonada ao sul: milhares de carros, vans, caminhões. Inertes como se tocados pela morte que toca o homem. E aquilo servia apenas para demonstrar aos meus nervos abalados que o poder que viera com os estranhos ainda estava presente de alguma forma e que, algum dia, era provável, seus proprietários voltariam para reivindica-los.

Estabeleci-me bem alto em um edifício de luxo quando entendi que agora tudo me pertencia. Com o passar do tempo meu organismo acostumou-se a ingerir e processar os mais diversos tipos de alimentos não comuns ao homem. Toda a noite ia até a janela e observava a escuridão lá fora. Jamais avistei sequer o brilho de alguma ínfima luz no horizonte e as silhuetas dos prédios imersos nas trevas se assemelhavam a terríveis animais gigantes me espreitando do escuro. No alto, as terríveis estrelas eram as únicas testemunhas de minha agonia; elas e as caras repuxadas que se esgueiravam por trás. Eram elas que eu, na verdade, esperava avistar olhando de volta para mim em meio as trevas do mundo.

Assim foi o meu sonho... Meu pesadelo. Não sei até que ponto ele faz sentido a não ser como testemunho de nossa solidão eterna em meio à vastidão opressora de um universo mal-intencionado

SOMBRAS DA NOITE ( contos macabros )


Lá fora, a chuva desabava nos telhados, e ninguém ousava sair de casa tão cedo.

O murmúrio do vento ecoava na noite, quando Teresa acordou demoradamente. Olhou para o rebento que dormia com cara de anjo na confortável alcofa, ora preparada na véspera para a jornada que se seguia. Pouco depois, a jovem mãe abandonou a casa, esgueirando-se directamente para o táxi, que a esperava mesmo à porta da sua casa, prosseguindo a marcha por entre a neblina e o negrume da noite. A rua estava deserta, e detinha vários candeeiros fundidos, o que lhe abonava um aspecto sombrio e triste.

O transporte deixou-a sensivelmente, a trezentos metros do seu destino, e nesse local, Teresa pediu ao motorista para que a aguardasse uns quinze minutos, pois voltaria nesse instante.

Quando a mulher meteu o pé fora do carro, percebeu que a chuva ainda não cessara, o que a obrigou a correr até ao largo da Igreja, que era o seu destino. Ali, abandonou a alcofa que trazia com ela, e juntamente deixou uma missiva do bolso da sua gabardina encharcada, e encafuou-a, por entre as mantas de lã, que agasalhavam a bebé.

- Ficas bem, ficas com Deus! – Murmurou ela, obtendo como resposta, um sorriso por parte da menina, que era sua filha. Mas Teresa não se deteve, e logo, logo saiu dali a correr. Se se afastou a chorar, só Deus saberá.

Contudo, o sorriso da menina apenas durou alguns minutos, pois começou a ficar com frio, e assustada, dispôs-se logo a choramingar.

O pranto acordou vários moradores, que aconchegados nos seus roupões, se acercaram das janelas das suas casas, apercebendo-se que se tratava de um bebé ali abandonado.

Sob a arcada da abadia, uma imagem de Jesus, parecia orar pela criança desprotegida.

Bastaram alguns minutos para se criar algum rebuliço em volta da criança, que, acomodada na sua alcofa, fitava todos os aldeões, que dela se abeiraram para a ver.

- Esperem!... – Acudiu uma mulher gorda – Deixaram um envelope aqui, no meio dos cobertores.

- Está endereçado a quem?... – Indagou um homem idoso, que fumava cachimbo.

-
Ao Padre da paróquia... o padre António! – Redarguiu a mulher gorda, que já se preparava para abrir o subscrito, detendo-se quando ouviu uma voz familiar.

- Que clamor é este aqui, à porta da casa do Senhor? – Uma voz grave e autoritária rompera pelo meio do alvoroço. – O que se passa aqui?

- Oh, senhor Padre... – Balbuciou a mulher, que detinha a alcofa nos braços – veja esta pobre criança, foi abandonada aqui, ao frio...

- Deixe ver a criança! – Bradou o clérigo, que segurando a criança pelo colo, penetrou pela igreja adentro, trancando a porta de seguida, não permitindo que mais ninguém entrasse. Junto ao altar, pegou-lhe ao colo e olhou-a demoradamente, ao que a bebé respondeu apenas com o seu olhar inocente.

-Tens uns olhos azuis lindos!... Mas, misteriosos. – Concluiu. – Deixa cá ver, qual foi a desculpa que deram, para te abandonar ali ao frio... – murmurou o padre António, cortando meigamente o envelope.

“ Querido Padre,

Deixo ao cuidado da Igreja, a vida e educação deste meu rebento.

Que Deus me perdoe, pois pecado maior do que este que cometo, não existe, não senhor! Mas rogo que compreenda. Fui violada por um desconhecido. O médico não me permitiu o desmanche, e eu não tenho meio de criar esta inocente criança.

Assim, deixo-a com Deus, para que a proteja, porque eu rezarei por ela todas as noites.

Teresa”

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Na manhã seguinte, a menina fora vista pelo médico da Aldeia, que não lhe diagnosticou nada de anormal e, enquanto não chegavam os elementos dos serviços sociais para o cumprimento das formalidades legais, a menina, a quem já tinham “baptizado” de Virgínia, ficou ao cuidado de duas freiras, que não se cansavam de a mimar.

Aquela era a ultima noite que Virgínia passava em casa das irmãs, antes de ser levada para destino incerto (pois os serviços sociais, é que decidiam).

As irmãs, Lúcia e Fátima, estavam à janela do quarto com a criança, quando inesperadamente, esta se lançou num choro apavorante, que as deixou muito embaraçadas, sem saber o que fazer, pois em três dias, nunca tinham visto a pequenita naquele estado. Chorava sem parar, esperneava com uma força descomunal, e nem sequer permitia que lhe pegassem mais ao colo.

Em desespero, Fátima decidiu chamar o padre António, para que este decidisse, o que se havia de fazer. E lá foi Fátima, a correr até à Igreja, onde teimosamente ficava o aposento do Padre.

Não posso precisar quanto tempo passou, mas julgo que o relógio da torre tinha acabado de dar as dez badaladas, quando a voz da Irmã Fátima ecoou tenebrosamente pelas paredes da Igreja.

-Oh, Meu Deus!...Oh, Senhor Jesus Cristo...

Paulatinamente, as janelas das casas começaram a piscar como vaga-lumes, e as persianas a abrirem-se, fruto da curiosidade das pessoas, que logo acorreram às varandas para saber o que justificava tal pranto, tão pavoroso da irmã.

De joelhos junto ao catre do Padre António, Fátima chorava angustiosamente - O padre estava morto.

DOIS

Foi numa radiosa manhã que Virgínia conheceu, aquele que seria o seu novo lar: um orfanato situado numa aldeia dos arredores de Lisboa. Era uma criança muito bonita. Tinha uns olhos azuis luzidios, e um cabelo ruivo e liso, que adornava um rosto afável e oval. Não costumava divertir-se muito com as outras crianças, pois achava-as muito “infantis”, principalmente quando brincavam às escondidas e tinham por habito esconder-se na dispensa do orfanato, que era muito escura. E Virgínia não suportava o escuro.

Virgínia não era a “predilecta” das educadoras do estabelecimento de caridade, pois a inocente “carregava” com ela, uma história maldita, cuja ignorância das pessoas, levava-as a crer que a pobre criança ficara “possessa”, na noite em que o padre cessara a sua existência terrena.

A verdade é que Virgínia era uma miúda muito diferente das outras, podendo considerar-se, estranha mesmo. E para que não restem suspeitas acerca desta minha afirmação, passo a explicar:

Enquanto as restantes crianças desenhavam casas, pessoas, e paisagens da natureza...Virgínia não desenhava nada. A sua folha de papel era inundada por tinta preta, ao que ela, lugubremente afirmava, serem os seus sonhos durante a noite; enquanto as outras crianças dormiam a sesta, Virgínia negava-se sempre a fazê-lo, e durante o repouso, várias vezes fora encontrada com velas acesas junto ao beliche, o que, numa certa noite, até causou um breve, mas desagradável incêndio.

Não havia explicação para estes desvarios da pequena órfã.

Numa tarde, todas as crianças brincavam no pátio com bolas e arcos, quando inesperadamente, todos pararam a olhar para Virgínia, que ficara paralisada nem uma estátua, com uns olhos gélidos e sem expressão, alvejando a rua em frente, abstraída de tudo o resto. Imprevisivelmente, escutou-se um chiar de pneus, e de seguida um grande estrondo de vidros a partirem-se, tudo com grande violência. Não restavam duvidas, um homem fora mortalmente atropelado, mesmo em frente ao colégio!

Prontamente se gerou uma grande confusão em redor do homem que jazia ali no meio da estrada, mesmo em frente ao orfanato de onde as crianças foram logo recolhidas para dentro. Não tardou para que todas se lançassem a atirar as culpas do acidente à “estranha” Virgínia, que instantes antes, permanecera a olhar fixamente para o pobre homem.

Estranhamente, Virgínia não se lembrava de nada, aliás, ela nem sequer conseguia falar, e logo fora vista por um psicólogo, o doutor Carlos, que não lhe diagnosticou nada de anormal. “Apenas uma ligeira desordem no desenvolvimento cognitivo” escrevinhou ele, no relatório deixado nas mãos da directora do orfanato, que já se mostrava incomodada com aquela criança tão estranha.

A verdade, é que numa aprazível tarde de Maio, Virgínia foi adoptada.

Uma família, da qual eu posso assegurar, que tinha algumas posses, levou-a com eles, e sob um semblante acolhedor, partiram no seu carro moderno e comprido.

Virgínia ficou deslumbrada com dimensão da casa para onde ia viver, e mais aturdida ficou, quando pôde observar o seu quarto, que era maior do que dormitório do orfanato de onde viera. O homem, que se tornara seu pai adoptivo, era um respeitado industrial têxtil, e a sua mãe adoptiva, uma famigerada artesã e pintora de renome. Para perceber a história da adopção de Virgínia, recuemos dez anos atrás, quando o casal partilhava a sua imensa mansão com a sua filha biológica, de nome Isabel, que inexplicavelmente começou a sofrer de uma doença rara, que lhe paralisou todos os membros do corpo, incluindo a parte cerebral, que lhe levou a vida. Desde aí, o casal Aristides e Simone Fonseca não conseguiram enfrentar o vazio que lhes irrompeu pela casa, e lhes avassalou alma. Passado um ano, Simone foi informada pelo seu médico, de que se tornara estéril devido à depressão que sofrera, pela perda de Isabel, e foi então que decidiram adoptar uma criança.

Todavia, o casal perfilhou uma regra para tal decisão. A menina que eles haviam de escolher, teria de se assemelhar à perecida Isabel.

Assim, o casal Fonseca visitou vários lares de adopção, até que descobriu uma menina de cabelos ruivos e olhos azuis luzidios no meio daqueles miúdos órfãos, e assim que se entreolharam, não tiveram dúvidas de que, aquela seria a criança que havia sair da porta com eles.

A família Fonseca vivia num “cottage”, cuja moradia de estilo rústico era composta por dois andares, uma cave e um sótão. No seu frontispício, estendia-se um imponente e viçoso jardim.

TRÊS

No décimo segundo aniversário de Virgínia, Aristides e Simone decidiram convidar alguns amigos e familiares mais próximos para jantar, onde celebrariam o aniversário dela. Um dos casais convidados tinha um filho chamado Victor, que era um pouco alienado e estranho.

Durante o Jantar, ela sentiu um calafrio estranho, trespassar-lhe a espinha e seguidamente sentiu-se indisposta, o que a levou a pedir aos “pais” a sua permissão para sair da mesa, ao que estes aquiesceram. Virgínia subia as escadas que a levavam ao seu quarto, tencionando deitar-se, pois a sua indisposição era profunda. Sentia uma náusea agoniante, e temia já ter sofrido aquela náusea antes, embora não se lembrasse quando.

Virgínia penetrou no seu quarto, e como era hábito, deixou uma luz acesa. Deitou-se na sua cama e fitou as paredes alvas do seu quarto. Subitamente apercebeu-se da presença de alguém no quarto. Era Victor, e fitava-a com um rosto maligno, enquanto caminhava vagarosamente na sua direcção.

- Sabes, Virgíniazinha...Eu sempre gostei de ti. Agora vou papar-te!... – Rosnou Victor, com uma voz rouca e com os olhos desorbitados.

- Não te aproximes Victor, senão... – A boca de Virgínia foi tapada pelas mãos vigorosas de Victor, que a seguir a derrubou para o chão, abafando-lhe o corpo franzino, com o seu, pesado e inchado.

Em sufoco, tentou gritar, mas a mão de Victor era forte demais. Victor derrubou-a contra o soalho do seu quarto e manteve-se em cima dela, tentando violá-la.

A pobre rapariga tentava gritar e lutar, mas sentia que não tinha força suficiente para retira-lo de cima dela. Inesperadamente, os seus olhos testemunharam algo realmente sinistro, a penetrar no quarto. Não sabia o que era, mas era algo profundamente medonho. Uma sombra. Oh, sim! Uma Sombra funesta trespassara o seu aposento e dirigia-se na direcção de Victor. Era a sombra tenebrosa que vira, antes daquele homem morrer, quando atravessava a estrada. Agora prostrava-se no seu quarto e detia-se atrás do corpo Victor, que lhe pesava sobre o seu. Virgínia arrancou todas as forças das profundezas dos seus músculos, e com um safanão brusco, atirou com Victor contra a janela do seu quarto, o que fez com que este trespassasse a janela e caísse lá em baixo.

A sombra seguiu-o, arrancou-lhe a alma com uma ceifada violenta, desaparecendo por entre a bruma.

Seguidamente, a jovem deixou de ver por uns instantes, e quando voltou a abrir os olhos, apercebeu-se que estava rodeada pelas visitas lá de casa, que se demoravam à sua volta. Ouvira um pranto, vindo do andar de baixo. Eram os Pais de Victor, que choravam junto ao seu corpo inerte.

Aristides e Simone fitavam-na com uma dureza crua.

- O que lhe fizeste, Virgínia?... – Interrogou Aristides com o rosto rubro de inquietação.

Virgínia tentou responder e justificar a sua ira, perante a tentativa de violação por parte do seu agressor, mas não conseguia justificar o resto, e por isso preferiu ficar calada.

A família Fonseca viu-se rodeada de sérios problemas, depois do incidente ocorrido naquela noite funesta. Victor era um adolescente problemático. Os pais sabiam que ele era um verdadeiro predador de rapariguinhas, mas minimizavam sempre as situações, escudando-se nos seus problemas clínicos, que eram acompanhados por um prestigiado psiquiatra da cidade. Mas agora estava morto, e a noticia tinha corrido toda a região. E não será preciso ser exaustivo para referir que os negócios dos Fonsecas tinham sido afectados, após o incidente, não fossem os pais de Victor, uns dos seus melhores e mais influentes fornecedores de matéria-prima.

Um ano passou e os Fonsecas estavam a beira da ruína. Uma das suas fábricas de lanifícios abriu falência e a outra para lá caminhava. A casa estava à venda e não se afiguravam melhores dias.

Numa tarde sombria, Virgínia distraía-se numa alegre “chinchada” a uma macieira que se conservava no jardim, quando deu pela presença lúgubre e inesperada de Simone, por trás dela. Tinha um rosto pálido e um sorriso mórbido.

- Bom dia, Virgínia!... – Saudou Simone, com uma voz lúgubre.

- Bom dia, mãe... – Respondeu Virgínia, disfarçando a surpresa.

- Sabes Virgínia!... – Sussurrou Simone, que detinha ambas as mãos escondidas atrás das costas – eu já fui feliz...e agora, não sou. Aliás, eu não sei o que é ser feliz, desde que tu puseste os pés nesta casa...

Simone aproximava-se vagarosamente de Virgínia, ao mesmo tempo que ia murmurando algumas frases estranhas, até que a atacou repentinamente, enlaçando-lhe uma corda em volta do pescoço. Completamente descontrolada, tentou arrastar a garota até junto do tanque, e ali arriscou empurrá-la para baixo.

-Morre, maldita!...morre e leva os teus demónios contigo, miserável – Guinchou estridente, com uma voz rouca.

A miúda segurou-se ao pequeno mural que envolvia o tanque, e conseguiu libertar-se, atacando-a com uma pedra que escondera na sua algibeira, para atirar aos pássaros. Depois de notar que a sua opositora a soltara, Virgínia fugiu, penetrando dentro de casa. Sem perder tempo, colocou várias peças de roupa num mala e evadiu-se da residência, fugindo pelo matagal a fora, orientando-se pela berma da estrada. Sentia-se profundamente exausta, desnorteada e triste.

Ao fim de caminhar alguns quilómetros, e das bolhas começarem a magoar-lhe os pés, Virgínia decidiu acercar-se da estrada para pedir boleia. De polegar esticado para trás, e de trouxa às costas, a miúda arriscou a sua sorte.

A noite já ameaçava cobrir a planície quando um Fiat 127, cor de laranja abrandou a marcha e parou, junto à garota.

- Para onde vais?... – Perguntou um jovem, afectuosamente.

- Para longe daqui!... – Retorquiu Virgínia, com um tom seco.

O rapaz de cabelo muito claro, abriu a porta e com um aceno, convidou Virgínia a entrar.

- És de onde? – Inquiriu ele, engatando a “segunda”.

- Sou daqui perto... – Sussurrou Virgínia, laconicamente.

- Parece que estás triste!...Tiveste algum problema? – Insistiu ele, com um ar preocupado.

Virgínia reparou que o rapaz tinha uns olhos tão claros, como jamais tinha visto numa pessoa. O seu rosto era sincero. Sincero demais, diga-se!

- Como te chamas? – Interrogou ela baixinho.

- Gabriel! – Respondeu ele prontamente!

-Como o anjo! – Afirmou ela, de modo peremptório.

- Sim...como o anjo!...Estás com algum problema, não estás?...podes desabafar comigo, posso, no mínimo, ouvir-te! – Declarou Gabriel, melancolicamente.

- Sabes, há uns tempos, matei uma pessoa! – Redarguiu ela, com um ar pensativo e triste.

-Porquê que o fizeste? – Insistiu.

- Ele atacou-me, e queria fazer-me mal... – Engoliu em seco.

-...E tu, defendeste-te? – Atirou ele, como que adivinhando a resposta.

- Sim...não!...isto é... – Balbuciou Virgínia, meio confusa. As imagens palpitavam-lhe pela memória, e não a deixavam raciocinar.

-Há mais alguma coisa, Virgínia? - Insistiu Gabriel.

Escutou-se um breve silêncio, que só foi suspendido pela voz da garota.

-Eu vi uma sombra! – Foi a lúgubre resposta.

-Uma sombra? – Continuou Gabriel, surpreendido.

- Sim. Uma sombra. Mas não é uma sombra qualquer, Gabriel. É uma sombra, que antecede a morte das pessoas!... – A frase pareceu-lhe estranha, pois nunca tinha dito aquilo a ninguém.

- Uma sombra, que antecede a morte das pessoas....e tu, vê-la... – Repetiu ele, coçando ligeiramente a testa.

- Sim. Já a vi várias vezes! Primeiro sinto um tremor frio, que me trepa pela espinha. Depois, sinto a sua presença. É uma presença tenebrosa e arrepiante. Por fim, fica tudo escuro, e da escuridão sai uma sombra maligna, que trespassa a pessoa, arrancando-lhe a alma. – Ela esperava que, daquela revelação sinistra, Gabriel parasse o carro e desatasse a fugir. Mas estranhamente, ele lançou-lhe um olhar meigo e prosseguiu com o diálogo:

- Tens medo dessa sombra? – Inquiriu, enquanto os seus olhos meigos procuraram o rosto apavorado de Virgínia.

-Tenho. É mesmo algo assustador...nem tu imaginas o que sinto, quando a vejo. – Exclamou ela, entre soluços.

- E, já pensaste, que não vês essas sombras por acaso?...

- O que queres dizer? – Perguntou Virgínia, com a voz profundamente fria.

-O que eu quero dizer, é que tu tens um dom. Um dom que te foi dado por Deus, para que tu, e apenas tu, possas ver a morte a aproximar-se, antes de outra pessoa qualquer. – Afiançou Gabriel.

- O que achas que eu devia fazer, então? – Murmurou Virgínia, quase imperceptivelmente.

- Acho que podes salvar as pessoas, antes delas morrerem. Afinal, tu vês a morte a aproximar-se!...já imaginás-te que pode ser, essa a tua missão na terra?

Virgínia nunca tinha encarado o problema deste modo. Desde sempre que fora repudiada por todos, pois achavam-na Demoníaca. Uma vez, até ouvira uma das educadoras do orfanato a contar que o padre de uma paroquia tinha morrido, numa noite em que, ela ainda bebé, ficara possuída pelo Demónio. Sempre foi levada a pensar que era uma atrasada mental, com graves perturbações; mas depois de ouvir as palavras sensatas daquele rapaz belo como um anjo, sentia-se diferente. Afinal, ela tinha um dom, disse-lhe ele, e esse dom fora-lhe dado por Deus. Possuía o poder de salvar as pessoas da morte!

- É aqui que eu te deixo! – Pronunciou Gabriel subitamente, enquanto encostou o carro na berma da estrada.

- Hã?... – Suspirou Virgínia, meio aturdida. – Está bem! Obrigado pela boleia e... muito gosto em conhecer-te!

- Igualmente, Virgínia! Boa Sorte! – Exclamou ele, com um sorriso encantador.

Virgínia virou-se para observar o veículo a afastar-se, mas estranhamente, já não havia veículo nenhum. Foi como se tivesse esfumado pela bruma da noite.

Começou de novo a palmilhar, dirigindo-se em direcção a umas casas que despontavam mais à frente. Precisava de encontrar um sítio para dormir. Tinha algum dinheiro com ela, pois durante toda a sua vida na casa dos Fonsecas angariara um bom pé-de-meia. Pelo caminho, recordou-se da face de Gabriel. Era uma face harmoniosa, bem como a sua voz. Recordou-se do diálogo que ambos tiveram, e agora mais a frio, atemorizou-se ao notar que durante o mesmo, nunca dissera o seu nome a Gabriel, todavia ele sempre a tratou por Virgínia! - Como poderia ele saber o seu nome.

QUATRO

Continuou a caminhar, sem conseguir encontrar uma explicação lógica para aquela interrogação súbita, que lhe assaltara o espírito. Sentia frio e fome. Tinha penetrado numa pequena vila, e decidiu entrar no primeiro café que encontrou, pois um “cheirinho” a comida gravitara até às suas narinas, e ela não lhe resistiu.

O café, que era mais uma taberna, estava cheio de homens com aspecto obsceno e nauseabundo, mas assim que ela entrou, um súbito silêncio invadiu o local! Virgínia sentiu-se trespassada pelos olhos arregalados dos homens truculentos, percebendo que não era a única “mulher” no interior do local.

Atrás do balcão, uma mulher gorda, que os clientes tratavam por Dona Júlia, atendia os homens, que provavam ter-lhe muito respeito.

- O que procuras aqui, pequenita? – Questionou a mulher com uma voz gutural, mas afável.

- Tenho fome! – Redarguiu ela, com o rosto corado, e meia envergonhada.

- Espera lá...Estou-te a conhecer!... – Afiançou a mulher, fitando o rosto de Virgínia – Tu não és aquela miúda, que...?

- Sim. Sou eu... – Apressou-se Virgínia a responder.

Virgínia soube naquela noite de que a filha da dona Júlia fora uma das inúmeras vítimas de Victor, ali na aldeia.

E, talvez por isso, a dona da taberna, acolheu-a no seu modesto Albergue, oferecendo-lhe uma cama, roupa e comida quente. Fora uma maneira de a compensar, por Virgínia ter feito, aquilo que ela desejara fazer numa noite, mas que fora impedida pelos seus compadres, para não ter de passar algum tempo na prisão.

Ao fim de algumas semanas, Virgínia sentia-se bem no albergue. Gostava imenso da Dona Júlia, que afinal se revelara uma mulher extremamente sensível e carinhosa.

Num final de tarde, a mulher chamou-a ao seu reduto, e fez-lhe uma consulta:

-Minha linda...Já cá estás, vai fazer quinze dias, e eu queria saber se gostavas de continuar aqui a viver comigo. Sabes, gosto muito de ti e... – mesmo antes de terminar a frase, Dona Júlia fora arrebatada por Virgínia, que se lançou de braços abertos sobre ela, apertando-a com toda a força que os seus músculos possuíam.

A mulher propôs que ela estudasse na escola mais próxima, e que a ajudasse na taberna, sempre que tal se justificasse, o que Virgínia acedeu com bastante euforia, pois ela gostava do ambiente da taberna. Quando ela estava presente, os homens evitavam de ser obscenos e até eram simpáticos com ela.

Numa noite tormentosa de chuva e ventania, o albergue fora procurado por diversos camionistas, que optaram por pernoitar por ali, em vez de prosseguirem caminho, uma vez que a tempestade ameaçava as condições de segurança na estrada. A taberna também estava cheia. Afinal, era ali que muitos homens passavam o tempo. Uns jogavam às cartas, outros entretinham-se a conversar, etc.

Virgínia descansava na quietude do seu quarto, quando algo lhe assombrou o espírito. Algo muito Dantesco aproximava-se do Albergue. Levantou-se de imediato e assomou-se à janela do seu quarto. Estava escuro. Nem a luz ébria da lua deixava enxergar o que lá vinha. E Virgínia agourava que fosse mais uma daquelas sombras demoníacas que lhe terrificava a alma, antes de levar alguém, sabe-se lá para onde. Agora mais perto, a sombra confundia-se com o negrume da noite, e de entre os carvalhos que procediam o pátio do Albergue, a sombra, como provinda das trevas, rompeu em direcção à taberna, onde todos se mantinham num grande divertimento nocturno – “A sombra ia levar alguém”. – Premeditou.

Podia ser a Dona Júlia, que ela tanto amava. E naquele momento recordou-se das palavras do jovem Gabriel, quando lhe explicou o motivo das suas visões: “Acho que podes salvar as pessoas, antes delas morrerem. Afinal, tu vês a morte a aproximar-se!...já imaginás-te que pode ser, essa a tua missão na terra?”

Não podia hesitar. Teria de descer e ir salvar a mulher que a ajudou, quando todos lhe viraram as costas. Sem se deter, Virgínia desceu as escadas numa correria intensa, e ao acercar-se da porta que precedia a taberna, apenas se lembrou de gritar pela dona Júlia, suplicando-lhe para que ela fugisse dali, o mais rápido possível.

Sem perceber o porquê daquela exaltação repentina, a Dona Júlia saiu da taberna e veio ao encontro de Virgínia.

- Fuja, Dona Júlia!...Fujam todos, por favor, porque vem de lá algo muito mau!... – Bradou Virgínia, com o rosto rubro de pavor.

E sem detença, a mulher começou a afastar-se, com a face nitidamente incrédula. Atónitos, os clientes que permaneciam na taberna, decidiram sair também, e logo ali se gerou o pânico e a confusão.

Passados alguns minutos Virgínia notou que ficara sozinha na taberna.

“Onde estás?”, inquiriu ela, de si para si.”Quem é que tu procuras?”

Continuou a caminhar vagarosamente, ora de costas, ora de frente, como quem procura por algo que está escondido. Repentinamente, as luzes da taberna apagaram-se e o local ficou abafado por uma densa escuridão. Virgínia ouviu A Dona Júlia a vociferar algo, lá fora, mas não prestou atenção. Voltou a quedar-se no escuro, esperando por ver algo sinistro, que tanta desgraça tinha trazido à sua vida. Mas não via nada. Apenas uma fraca luz, que se levantou, da zona da cozinha. Olhou melhor e viu que não era uma luz. Era fogo. A cozinha estava a arder. Tentou fugir, mas uma labareda subiu pela parede, que era forrada a cortiça, logo arrebatou toda a taberna, e Virgínia viu-se envolta em chamas.

E foi ali, no meio das chamas, que viu um delirante terror, mesmo diante dos seus olhos. A sombra, a sombra maligna estava ali, mesmo à sua frente, e sem qualquer compaixão, ceifou-lhe a alma, arrancando-lhe o espírito para as trevas.

Cá fora, a Dona Júlia, e os frequentadores da taberna, apenas viram a prédio em chamas, a abater-se sobre os seus pilares, e a desmoronar-se completamente em direcção ao solo.

A agonia invadiu as almas ao assistirem ao lúgubre acontecimento, pois sabiam que a pobre Virgínia tinha lá ficado debaixo para os salvar a todos.

O PROFESSOR ( contos macabros )


Rachel percebia que ele a olhava estranho.O professor Augusto a tinha chamado para conversar sobre um determinado assunto.Só o educador e a adolescente se encontravam na sala de aula.Estranho, muito estranho.

-Sente-se Rachel.

Rachel se sentou, mesmo estando contrariada.Um professor não faria mal a uma aluna.

-A Jaqueline disse que o senhor me chamou.

Ele a fitou, sério.

-É... verdade.

-Bem, estou esperando.

Augusto a fitou mais sério ainda.O que aquele homem estaria prestes a dizer?

-Espero que me entenda, Rachel.

-Se o senhor me contar?

Ele ficou encarando os próprios sapatos, olhou para ela. Aquele homem estava prestes a contar.

-Você acredita em Deus?Acredita em um homem que nos protege todas as noites e que nos encaminha ao bem?

Ela deu um risinho.O que aquele doido queria?Estava Fazendo ela perder o intervalo.

-É sério?-Ela perguntou.

-Acredita que Lúcifer pode fazer a mesma coisa?

O sorriso de Rachel tinha sumido.

-Eu... acredito em Deus.-Sua voz passava medo.

-E no Diabo, você acredita?

Ela cruzou as pernas, depois descruzou.

-Pra que isso, professor?-Perguntou, com um sorriso tímido.

Augusto deu um risinho.

-Você é minha amiga, Rachel?

Ela olhou para a porta, depois voltou a olhar o homem.

-Sou, senhor.Não teria motivos para não ser.

Ele se remexeu um pouco incomodado, parecia estar preocupado.

-E... se eu... se eu lhe... se eu fosse o mensageiro de Lúcifer na Terra?Você ainda seria minha amiga?

Silêncio... Rachel não respondeu.Que conversa era aquela?Aquele homem não deveria andar por aí nas ruas, muito menos ser um professor.

-Tudo bem, Rachel.-Se levantou, foi até a porta.-Você já pode ir.-Disse, abrindo a porta.

Ela se levantou, queria sair logo, quanto mais rápido melhor.

-Até logo, senhor.-Disse, saindo.

-Até breve, Rachel.Até breve.-Ele a olhou por um instante.-Espere.

Ela foi se virando, bem devagar.Não acreditava naquilo.O professor portava em sua mão esquerda uma pequena faca.

-Sim, senhor?-Seus olhos fitavam a arma.

-Venha aqui.

Ela deu dois passos, dois passos cheios de medo.

O professor a olhou, parecia pensar no que estava prestes a acontecer.Rachel passou a mão na testa, enxugou o suor do medo.

Pânico... O professor tinha enfiado aquela pequena faca no coração da menina.

-E agora?Você ainda é minha amiga?

-Filho da...-Ela caiu no chão.

Rachel, a adolescente que tinha toda uma vida pela frente, estava agora morta.O que seus pais pensariam?Pobre do pai, pobre da mãe.

Uma coisa branca começou a sair do corpo da menina; aquela coisa foi tomando forma, virando gente; virou uma menina, ou pelo menos da cintura pra cima.

-Porque, professor?Porque tirastes a minha vida?-A voz, suave como o vento.

-Você foi muito má, Rachel.-A voz bem baixinha.-Minha menina, sabe quem sou?

Ela não respondeu.Um sentimento tocou seu coração e ela pareceu lembrar de tudo.

-Isso mesmo, Rachel.Você me tirou da minha mãe, da sua mãe.Eu era apenas um bebê naquela barriga, Rachel.Você não teve piedade, minha irmã.

-Foi... um acidente.Eu não queria derrubá-la.

O professor soltou um risinho.

-Será?Minha menina.Será que você realmente gostaria de ter um irmão?

Uma lágrima escorreu pelo rosto ventoso da menina.

-Eu sinto muito meu irmão... por... favor... me perdoe...

-Sim, Rachel.Está perdoada.Vá, descanse em paz.

A fumaça branca foi sumindo aos poucos.Augusto apenas notou a feição triste que se fazia formar no rosto da pobre menina.

-Pobre Rachel.

VÔO NOTURNO ( contos macabros )


Do alto do meu esconderijo observo, enquanto os últimos raios mornos do sol somem por entre as construções, a carcomida e decrépita, outrora poderosa, cidade com seus prédios sujos e mal cuidados. E ruas onde seres andam e que, de onde os avisto, me lembram formigas ou pequenas baratas, talvez .

Finalmente, quando a escuridão prevalece, me dirijo até a beira do abismo; sinto o vento frio misturado com gotículas de chuva esparsa em minha face e o mesmo vento inflar minhas asas e então mergulho no infinito, e vou planado, descendo lentamente sobre a ruína da velha cidade e de seus construtores atormentados.

Por entre os altos prédios, vou flutuando, aproveitando as correntes de vento encanado por suas paredes úmidas, cobertas de sujeira em tons cinza.

Desvio rápido para as sombras quando desconfio que algum deles possa ter-me avistado, a maioria não me vê pois sua percepção é bloqueada por sua incredulidade, mas alguns poucos me avistam, vou flutuando observando mendigos, prostitutas, viciados, trabalhadores se dirigindo apressados para o local onde vão tentar se esconder da decepção, não...não quero nenhum destes, prossigo minha busca enquanto a neblina se mistura com a luz amarelada de lâmpadas que iluminam as ruas de forma fantasmagórica.

Em um momento, então, algo me chama a atenção; em uma viela escura, calçada com pedras que brilham por conta da umidade que as cobre, um ser se movimenta; seu caminhar emite um som nervoso, que combina com seu andar rápido, a refletir a sua ansiedade em chegar a algum local, e suas formas esguias e provocantes, cobertas por uma roupa elegante, não combinam com o local. Ele carrega uma espécie de pacote em seus braços e eu mergulho em sua direção.

Um rasante sobre ela arranca uma espécie de chapéu e deixa à mostra um longo cabelo ruivo e com a surpresa ela deixa o pacote cair e algumas coisas se espalham pelo chão; volto e lentamente pouso à sua frente, enquanto ela tenta em vão catar os objetos que alegremente criaram vida própria e tentam se afastar, rolando por todo lado no calçamento úmido.

Ela ergue-se, desistindo da tentativa de catar os objetos, e me fita com um olhar misto de indignação e ódio e, para meu espanto, não de medo e horror, como o de outros tantos que abordei; e mais, diferente dos outros, ao invés de tentar fugir, com um salto investe sobre meu ser em uma tentativa de atacar; eu a observo enquanto ela tenta me atingir com golpes contra meu peito com suas delicadas e macias mãos possuidoras de longas unhas pintadas, que tentam me arranhar, e inexplicavelmente sinto uma sensação que parece ser alegria ou simpatia, permitindo que ela fique mais alguns instantes em sua labuta agressiva. Então, como de costume, depois de alguns instantes, assumo o controle de sua razão e a coloco em um transe estático e inicio a absorção de sua energia etérea; mas, em dado momento, algo está incomum, sua energia é diferente, ela me deixa em um estado diverso do normal, estranhas sensações percorrem meu ser, estranhos impulsos tomam conta do meu pensar e com este fato o transe estático se rompe.

Agora, quem tem a expressão de espanto sou eu, ao observar aquele ser que me parece o mais belo do universo, com suas formas que me atraem de forma irresistível a atenção. E então ela sorri, um sorriso misterioso e sedutor. Enquanto fico imóvel e encantado com sua visão, novamente ela se encosta a meu ser, mas agora me afaga. E onde me feriu com suas unhas, aproxima sua boca e beija e lambe as pequenas incisões. O contato com sua boca produz um flash em meu pensar e isto me tira do meu torpor. E de forma instantânea retribuo as caricias. Depois, a levo para um canto escuro, onde percorremos ambos nossos corpos em busca de mais e mais sensações. Em ritmo frenético, eu a livro de suas roupas e, finalmente, nos lançamos na busca de prazer, nos misturando, trocando nossas energias em ritmo alucinante por momentos que parecem durar uma eternidade de gozo e prazer, e em um flash, assim como começou...acaba. Afasto-me um pouco e a observo enquanto novamente veste suas roupas, enquanto me fita e sorri, no seu olhar identifico satisfação. Percebo então que o senhor do dia está próximo de se apresentar e como tal devo me recolher; dou uma última olhada para aquele ser que agora parece estar novamente em uma espécie de transe estático, com olhos abertos olhando o nada e então com um impulso ganho os ares novamente, vou subindo em círculos enquanto observo aquele ser retomar seu caminho como se nada tivesse ocorrido de diferente de sua rotina diária, dando a entender que tudo que passou se apagará de sua mente consciente.

Enquanto me dirijo ao meu local de pouso, onde sempre aguardo o senhor do dia se retirar, reflito e penso:

-Será desta forma que minha raça se perpetua?

-Além de necessitar destes seres para absorver energia etérea, também necessito deles para manter minha existência como raça então ?

Quando chego em minha morada, já não mais me atormento com essas questões, pois sei que existem mistérios que não me serão revelados, pois não está ao meu alcance seu entendimento, e aceito que sou apenas mais uma peça deste mistério.

Fecho meus olhos e aguardo novamente a noite serena chegar.

EXORCISMO DO SÚCUBUS(contos macabros )


Com certeza já ouviram contar histórias estranhas sobre casos de pessoas possuídas pelo demónio.

As mais vulgares, que até serviram de inspiração a escritores e realizadores de cinema, tinham sempre algo em comum: A vítima era uma pobre rapariga e o demónio, na sua versão masculina possuía o seu corpo.

O episódio que vos vou aqui narrar nada tem a ver com ficção literária, nem sequer tem a ver com influência cinematográfica. O que aconteceu foi real, ninguém me contou, fui eu que vi e vivi.

O ocorrido remonta aos anos oitenta, em que eu era ainda um jovem seminarista em Coimbra. Num fim-de-semana ausentei-me das instalações do seminário, apanhei o comboio e fui até Lisboa, pois a minha ideia era visitar o Cristo-Rei em Almada. E foi exactamente neste Santuário que tudo começou.

Detinha-me a rezar, quando repentinamente as minhas preces foram interrompidas por um soluçar forte vindo lá da frente onde se conservava o altar. Apercebi-me de uma figura de uma senhora já de meia-idade, toda trajada de negro que se debruçava sobre o altar numa reza estranha, mas convicta. À sua frente, várias velas queimavam incessantemente,cuja chama era ameaçada pelo seu choro incessante e desesperado.

Confesso que aquela situação me desconcertou e fez – me interromper as minhas preces. Contemplei a pobre mulher durante mais uns minutos, e não hesitei em ir me dirigir até ela.

- Minha senhora – sussurrei eu – A senhora está bem?

- Silêncio – asseverou ela sem mostrar o seu rosto.

-Apenas quero ajudar. A senhora está a sentir-se bem? - Inquiri persistente.

Foi neste momento que ela se virou e me deixou ver o seu rosto enrugado e os seus olhos vazios e cegos.

Confesso que hesitei entre ir-me embora e ajoelhar-me ao lado dela a rezar.

- Que queres de mim? Não percebes que não me podes ajudar? Nem a mim nem a ele?...

- Ele? Ele, quem? – Insisti

- Ele! – Afirmou, mostrando uma fotografia com a face de um jovem, supostamente seu filho. – Ele vai morrer. Nada, nem ninguém o poderá salvar. Meu lindo Duarte. - Suspirou a idosa, levando a mão ao meu peito.

- O que tem o Duarte? – Perscrutei eu segurando-lhe na mão

- Tu és um padre? – Questionou ela após verificar o meu traje.

- Sim, sou padre. – Menti, pois ainda não tinha terminado os estudos. – Gostava de poder ajudar o Duarte, minha senhora.

- És jovem como ele. – Asseverou, colocando as suas mãos enrugadas, mas quentes e meigas sobre o meu rosto.

- Então, diga-me o que se passa com o Duarte? Não há nada que a fé e, Jesus Cristo não salve...

Neste momento vi a idosa retirar um pequeno papel dobrado do seu alforge e, agarrando-me nos pulsos, depositou o papel na palma da minha mão.

-Aparece nesta morada amanhã cedo. Acredito na tua fé, jovem. Terás a tua prova de fé, amanhã quando os conheceres!

-Quando os conhecer, a quem? – Indaguei. - Amanhã verás! Espero que o consigas ajudar, pois até agora ninguém conseguiu, e já lhe resta pouco tempo. – Assegurou a idosa, voltando-se para o altar. De seguida benzeu-se, agarrou na sua bengala, e seguiu em direcção à saída.

Confesso que me senti nervoso quando a vi sair. Não foi pena nem compaixão, mas sim...admiração. Admiração por uma figura, aparentemente tão frágil, mas com um carácter tão forte e determinado.

Desembrulhei o pedaço de papel e verifiquei que se tratava de uma morada:

“Rua dos pescadores, lote 1 – 1ºandar – Seixal”

A paragem da camioneta onde o motorista me disse para eu sair, distava apenas alguns metros da morada que eu tinha.

Não demorei a encontrar a casa. Esta situava -se no âmago de uma rua estreita e revestida de calçada. Apercebi – me de que a minha presença chamara a atenção da vizinhança, que apareceram nas janelas, benzendo-se como se tivesse chegado um...”salvador”. Deduzi que toda a gente tinha conhecimento do que se passava com o Duarte. A minha ansiedade aumentava à medida que me aproximava da porta do lote 1.

A porta foi-me aberta mesmo antes de eu bater. Do interior da casa apareceu à porta uma jovem de cabelos castanhos, aparentando não ter mais de doze anos.

- Entre, senhor padre – Sussurrou ela com um tom muito envergonhado e olhar acanhado.

Entrei e aguardei que ela me guiasse até ao quarto onde estava o Duarte.

Subi umas escadas que finalizaram em frente de uma porta, que estranhamente estava toda trancada com vários cadeados e correntes À volta da porta, também havia estacas pregadas, e a parte superior estava rachada.

Subitamente dei pela presença da mãe de Duarte mesmo atrás de mim.

- O Duarte está a dormir, senhor padre. Está muito cansado, passou a noite toda acordado. Sabe, “ela” não o deixa descansar – Afirmou com um ar medonho e de mistério.

- O que se passa aqui nesta casa? – Interroguei com firmeza.

- Espero que esteja preparado para o que vai ver, senhor padre – Avisou a idosa, começando a destrancar a porta. Apercebi-me que a garota ficara escoltada com a porta da cozinha quando ouviu o destrancar dos cadeados.

Do interior do quarto veio o horror pavoroso de algo que nunca imaginei ver em toda a minha vida.

Duarte estava amarrado à cama. O seu rosto, outrora belo, estava completamente desfigurado, tinha os olhos vermelhos e sem vida. A boca estava torta e ensanguentada, e as veias inchadas erguiam-se dos braços e do pescoço como se estivessem prestes a explodir.

Duarte estava possuído!

O seu sono, aparentemente profundo fora quebrado pela minha presença.

Fui devorado pelo olhar temível que ele me lançou. Não o Duarte, mas o que estava dentro dele. Eu não estava preparado para aquilo, mas comigo trazia sempre um pouco de água benta, e foi o que eu lhe lancei para cima, proferindo frases em hebraico e latim, mas nada se alterou. Ele apenas sorriu e de seguida cuspiu-me para cima.

Abandonei o quarto e prometi regressar no dia seguinte, logo pela madrugada.

Algumas horas antes da aurora surgir já eu estava frente a frente com aquilo.

Tinha passado a noite toda a ler e a pesquisar sobre exorcismo e pessoas possuídas, e suspeitava de que Duarte estava possuído por Súcubo, o demónio o demónio violador, cuja lenda adopta o sexo masculino, tornando-se no demónio Incubus, e que se apodera do corpo de mulheres, possuindo-as.

Com o crucifixo na minha mão direita, clamei pelo seu nome:

- Súcubus!

Os seus olhos acenderam-se na escuridão do quarto e nem sequer me procuraram. Fixaram algo que eu não conseguia ver o que era. Seguidamente o corpo de Duarte deu o solavanco e vomitou na minha direcção

- Quero que abandones esse corpo e regresses para as trevas imediatamente, maldito – gritei.

Súcubus ergueu-se levando o frágil corpo de Duarte com ele, ficando cara-a-cara comigo. Senti o odor da sua boca fedorenta levitar até às minhas narinas.

- ABANDONA ESSE CORPO IMEDIATAMENTE! – Insisti.

A criatura iniciou uma sequência de convulsões violentas sem parar, levando de rojo o corpo de Duarte, que já devia estar prestes a sucumbir a tanta violência

Eu, incansavelmente, continuei a dar-lhe ordens de expulsão do corpo daquele jovem inocente.

Foram várias as horas que se assaram naquele tormento infernal, até que caí de cansaço no chão. Eu estava derrotado. Mas quando eu comecei a acreditar que Súcubus iria permanecer no corpo de Duarte, percebi que estava enganado demónio já não habitava lá. Os olhos tristes e cansados de Duarte olhavam-me sem expressão, e com um misto de curiosidade e pena.

Confesso que a forma como me contemplava me incomodou bastante, pois a sua expressão adoptava contornos cada vez mais estranhos e misteriosos.

Por fim percebi a razão pela qual Duarte me olhava assim: O demónio estava em mim. Sucubus tinha abandonado o corpo do Jovem e apoderara-se do meu. Quando percebi que Súcubus se tinha apoderado de mim, Gritei o seu nome: -Súcubus! Meu grande e eterno amor. Finalmente me tens! Finalmente tens o meu corpo só para ti. Sou a tua dádiva. Possui-me para sempre, porque sempre te procurei, meu amor!

O DESPERTAR DE ELISA( contos macabros )


“Colégio Sta. Maria 1961

Elisa já não conseguia prestar atenção na aula, se contorcia de um lado para o outro com as mãos entre as pernas que balançavam tentando segurar.

- Elisa! Posso saber o que está acontecendo? – perguntou a professora chamando a atenção de toda a classe.

Era o que Elisa temia, a sala toda olhando para ela, sua pele pálida ficou ruborizada. Elisa era uma garota tímida, não tinha amiga, e era sempre hostilizada no colégio. Toda escola tem um aluno que é alvo de piadas, gozações e humilhações. Ela era a preferida no colégio feminino Sta. Maria, um dos mais rígidos e tradicionais colégios de São Paulo.

As outras meninas judiavam dela, por ser extremamente ingênua e não ter o padrão de beleza ideal para elas. Elisa era magra, de pouca estatura, cabelo preto escorrido, seus olhos verdes ficavam quase escondidos pela longa franja.

Foi assim durante anos, e Elisa aos dezesseis não era muito diferente de quando ingressou, sempre introvertida, era muito difícil vê-la sorrir, não participava das conversas e rodinhas das suas companheiras de sala. De família humilde, Elisa se esforçava o máximo para tirar boas notas, mantendo assim a sua bolsa de estudo.

Agora não tinha saída, ela já sabia que seria motivo de piada novamente. Levantou-se e com a cabeça baixa pediu:

- Desculpe professora... É que eu preciso ir ao banheiro.

- Porque você não foi na hora do intervalo? – perguntou a professora sem obter resposta. - Vai! Não quero ninguém fazendo na calça, justamente na minha aula.

A turma foi ao delírio. Elisa se arrumou rapidamente e saiu da sala sob o coro de Mijona!”

As meninas aguardavam com ansiedade a chegada de Clara, elas combinaram de se encontrar no vestiário.

- Você não quer ligar pra ela? Está demorando. Não temos muito tempo. – disse Regina.

- Ela deve estar chegando. Vou mandar uma mensagem. – respondeu Ana.

- Não precisa! Já cheguei...

- Clara! Ainda bem, não temos muito tempo. E aí conseguiu? – perguntou Regina

- Claro! Olha aqui... – respondeu Clara tirando da mochila um pedaço de cartolina e uma caixa de papel.

Clara estendeu a cartolina no chão e colocou trouxinhas de pano em cada extremidade enquanto Ana acendia as velas.

“ Elisa caminhou pelo corredor escuro do vestiário de cabeça baixa tentando não chamar atenção. Impossível! Havia algumas meninas se trocando no vestiário e uma delas logo percebeu sua presença. A garota ficou espiando pela fresta atrás dos armários para ver em qual banheiro ela entrava.

- Pessoal, sabe quem acaba de entrar no banheiro? – sussurrou – Aquela menina esquisita. Como é mesmo o nome dela?

- Elisa? Não acredito! – respondeu a amiga dando um largo sorriso – Vamos dar um susto nela?”

Na cartolina estava o alfabeto e algarismos distribuídos em círculo e as palavras sim e não em cada extremidade.

Sob os olhares atenciosos de suas amigas Clara explicava com calma, passo a passo o ritual para a comunicação com espíritos através do jogo do copo.

- Sempre tive medo de brincar com isso. E se der errado? – disse Ana

- Não fique com medo. Já fiz várias vezes e nunca aconteceu isso, só precisamos seguir as regras direito para que não ocorra nenhum problema. O segredo é acreditar e não demonstrar medo. – respondeu Clara.

As meninas deram as mãos em torno do tabuleiro e começaram o ritual.

- Estamos aqui para nos comunicar com o plano espiritual, gostaríamos de fazer perguntas aos espíritos que aqui se encontram. – disse Clara.

Com o dedo indicador em cima do copo, elas começaram a invocação.

- Tem alguém querendo se comunicar? – perguntou Clara

O copo permaneceu imóvel.

- Algum espírito gostaria de se comunicar? – perguntou novamente.

- Acho que eles não estão muito afim. – disse Regina

- Concentrem-se! Deixem a mente vazia... – disse Clara – Invocamos os espíritos que aqui estejam e queiram se comunicar. Tem alguém ai?

O copo se arrastou vagarosamente até a palavra SIM e retornou para o centro. Ana e Regina arregalaram os olhos.

- Você quer se comunicar conosco? - perguntou Clara.

O copo novamente se moveu na direção afirmativa.

- Quem é você? Pode dizer o seu nome? – perguntou Ana

O copo começou a se mover quando foi interrompido por uma forte batida no armário.

- Posso saber o que vocês estão fazendo aqui?

“As garotas retiraram folhas de seus cadernos, juntaram embaixo da porta sem que Elisa percebesse, e colocaram fogo. O papel começou a queimar rapidamente, as chamas começaram a queimar o fundo da porta. Elas tentavam segurar a vontade de rir e se amontoavam no banheiro ao lado para ver o que aconteceria. Elisa se assustou ao ver toda aquela fumaça saindo da porta, vestiu sua saia rapidamente e tentou abrir a trava, mas o fogo estava consumindo rapidamente a velha porta de madeira. Ela começou a berrar desesperada e as meninas riam com toda a situação.

- Elisa aqui em cima! Suba por aqui! – gritou uma delas no vão do banheiro ao lado.

O sistema de incêndio foi acionado, o alarme ecoava pela escola inteira.”

Clara levantou assustada e ficou na frente do tabuleiro, ela conhecia essa voz. Todos no colégio conheciam. Era a inspetora Helena, a funcionária mais velha do colégio, sua vida era o Sta. Maria, não se cansava nunca de desempenhar o duro trabalho que carregava há quase quarenta anos.

Elas rapidamente foram ao encontro da inspetora para evitar que ela visse o tabuleiro.

- Desculpa Dona Helena, sou eu, a Clara.

- O que vocês estão fazendo nessa escuridão meninas?

- Estávamos procurando o brinco da Regina, mas já encontramos. – retrucou Clara tentando disfarçar.

- E estão procurando brinco no escuro? Ora vamos logo! Vocês estão atrasadas... Mas o que é isso? Pra que essas velas?

As meninas tentaram, mas, não conseguiram enganar a velha inspetora.

- Alguém pode me dizer que diabos é isso?

As meninas ficaram sem reação...

- Até você Clara?

- Eu posso explicar. Isso é apenas um jogo. – disse Clara

A inspetora se abaixou e com sua lanterna iluminou o tabuleiro.

- Isso mais parece um culto a Satanás. As senhoritas conhecem as regras da nossa escola. Jogos não são perm...

A velha Helena não podia acreditar no que via. O copo começou a mover-se sozinho pelo tabuleiro.

“Elisa apoiou-se no vaso sanitário, tentando atravessar a divisória.

- Isso Elisa! Força! - gritou desesperada uma das meninas – Você está conseguindo!

Ficou na ponta dos pés, chegando ao limite e segurou firme a divisória. Os sapatos molhados não sustentaram a pressão, Elisa não conseguiu se segurar, sofreu uma forte alavanca e bateu a cabeça no vaso.

- Oh! Meu Deus! Ela caiu! Ela caiu! – gritou a menina desesperada.

O zelador e a inspetora entraram correndo pelo vestiário com um extintor. Enquanto ela tentava apagar as labaredas que consumiam a porta, o zelador subia pelo banheiro ao lado.

- Ela está ferida. Helena, eu vou ter que pular.

O zelador saltou e com pontapés derrubou o que restara da porta.

Elisa estava caída com um corte profundo na cabeça, o vaso estava repleto de sangue, seus olhos estavam abertos sem nenhuma direção.

- Afastem-se! Afastem-se! – gritava o zelador com a garota no colo.

O vestiário já estava repleto de professores e alunos curiosos, tentando saber o que se passava.

- Minha nossa! Ela está... Ela está... Morta! – gritou a inspetora levando as mãos à cabeça.”

Juntamente com a inspetora as meninas se aproximaram para ver o copo. Ele começou a deslizar vagarosamente entre as letras.

“E”

- Meu Deus está formando algo.

“L”

- Não acredito! O que significa isso Clara?

“I”

- Um espírito... Ele está usando o copo para se comunicar. “S”

- Não pode ser...

“A”

- O espírito está respondendo o que perguntamos. É o nome dela! – falou Regina

- Elisa? Isso é loucura! - disse a inspetora – Recolham isso agora!

- Não podemos terminar assim Dona Helena... – retrucou Clara

As meninas explicaram que tinham que finalizar o que começaram, mas a inspetora não ficou convencida e retirou o copo do tabuleiro.

- Não por favor! Não pode ser assim... – pediu Clara em vão.

- Já vi muito por hoje. E quero as três em quinze minutos em minha sala. – disse a inspetora – E esse material fica comigo.

A inspetora recolheu o copo e o tabuleiro e saiu do vestiário.

“Elisa foi levada para a enfermaria do colégio, mas não havia nada a ser feito. Foi velada no salão de cerimônias do próprio colégio. Usando o vestido preto que vestiria em sua formatura. Sua pele pálida contrastava com o cabelo negro, escorrido, em volto a flores. As mãos repousavam sobre o peito com os dedos entrelaçados segurando um terço de prata. A cerimônia foi interrompida algumas vezes por causa dos desmaios de sua mãe e também para fechar os olhos de Elisa que se abriram duas vezes durante a madrugada. Ninguém soube explicar sua morte e nem achar os culpados por aquela infeliz brincadeira. Elisa se despediu de uma vida que não teve.”

Ainda no vestiário as meninas tentavam entender o que tinha acontecido. Clara disse que nunca tinha visto o copo se mover sozinho daquele jeito. Ana e Regina estavam mais preocupadas com a advertência que provavelmente receberiam.

- Meti vocês em confusão né? Desculpa... – disse Clara.

- Não! Estávamos curiosas para saber como era esse jogo. – respondeu Ana - Gente vocês acham que essa Elisa existiu mesmo? Tinha mesmo um espírito naquele copo?

- Eu acredito que sim! E o pior é que não terminamos, e isso não é nada bom.

Logo após, as meninas se dirigiram a sala da inspetora, ouviram duras broncas, ela condenou aquilo que chamou de obra de satanás e disse que se aquilo se repetisse ela teria que reportar a diretora.

As três prometeram não fazer mais esse tipo de jogo e se preocupar mais com os estudos.

Após saírem, Helena debruçou na janela, e pensou em voz alta:

- Elisa...?!?!

A inspetora jamais esqueceu daquele olhar triste, Elisa sentada em sua sala, chorando, humilhada, tinham destruído o trabalho que ela apresentaria na feira de ciências. A inspetora sempre esperou que um dia Elisa fosse explodir, soltar toda sua angustia, revidar as provocações. Mas isso nunca aconteceu. Quanto mais era provocada, mais se isolava. Por mais que quisesse ela não pode ajudá-la.

No dia seguinte Clara não conseguia prestar atenção na aula, tinha passado a noite inteira pensando no que tinha acontecido. A voz da professora parecia diminuir cada vez mais, os movimentos pareciam cada vez mais lentos...

Mas algo chamou sua atenção, ela viu uma menina passando pelo corredor, pode ver pela janela a menina andar lentamente até a porta. Ela vestia uma camisa branca totalmente fechada, uma saia de pregas azul marinho, e meias brancas. A menina ficou parada em frente à porta, com a cabeça baixa.

Ela olhou para suas amigas, mas todas prestavam atenção no que a professora dizia, se levantou e foi ao encontro da garota. Quanto mais se aproximava menos ouvia a voz da professora. Ficou frente a frente com ela. A menina tremia, as lágrimas escorriam no rosto delicado. Clara passou a mão no rosto da garota e levantou sua cabeça. A pele era pálida, gelada e endurecida, os olhos verdes arredondados tinham as pupilas dilatadas. A menina começou a caminhar pelo corredor. Clara passou a acompanhá-la. Seus passos eram curtos e rápidos. As duas desceram a enorme escadaria e continuaram caminhando. A menina parou em frente à diretoria e quando Clara se aproximou, ela se curvou e começou a expelir sangue. O sangue tomou conta de todo o corredor.

Clara gritou desesperada...

Todos na sala se assustaram com o grito de Clara.

- Clara? – perguntou a professora – O que aconteceu querida? Você está bem?

Ela olhou para a professora e apenas balançou a cabeça.

- Acho que você cochilou. Vá ao banheiro e lave seu rosto.

Regina se ofereceu para acompanhá-la e com a permissão da professora, elas se dirigiram ao banheiro.

- Ela está aqui! Rê, eu vi... Era ela... Elisa.

- Isso é loucura! Você teve um pesadelo.

- Foi real! Eu pude sentir. Ela estava muito triste, e começou a sair sangue de sua boca...

- A brincadeira do copo nos impressionou e você cochilou e acabou tendo um sonho ruim. Eu também não consegui dormir direito à noite.

As duas entraram no vestiário, enquanto Clara lavava o rosto, Regina ficou lendo os recados no mural pregado na parede.

- Que maravilha! Dia vinte tem show dos... Clara?

Ela não estava mais no lavatório. Regina estranhou e foi até o banheiro.

- Clara? Você está ai? – sem resposta, ela começou abrir a porta de cada cabine.

O medo tomou conta de Regina, a cada porta aberta sua tensão aumentava. Restara apenas a ultima porta. Ela suspirou fundo e tentou abrir. Estava fechada.

- Clara? Você está bem? Você quase me mata de susto!

- Clara? Quem está aí? Abra essa porta!

- Rê... Estou aqui! Fui pegar um lenço no meu armário.

- Mas... Se não é você, quem está nesse banheiro?

Nesse momento a trava da porta se abriu. Os pés de Clara e Regina pareciam cimentados pelo medo. A porta foi se abrindo lentamente com um ranger forte e lento.

Elas não esboçaram nenhuma reação...

Até que saiu do banheiro uma garota usando um fone de ouvido. Todas se assustaram. Após ela atravessar o corredor, as duas não conseguiram parar de rir.

- Tá vendo Clara? Estamos muito impressionadas. Você viu a cara dela?

- É verdade. Não sei quem estava com mais medo se era a gente ou ela...

- Precisamos voltar! Daqui a pouco a professora manda alguém ver o que está acontecendo.

- Vai subindo! Eu já vou... Toda essa história acabou mexendo com meu intestino. – disse Clara

Regina sorriu, colocou a mão no ombro de Clara e disse:

- Ok! Mas não demora hein? Bom, pelo menos você está melhor...

Regina saiu do vestiário. Clara, desabotoou a calça rapidamente e entrou no banheiro. E como sempre repetiu o velho ritual antes de travar a porta. Alternou a trava para OPEN e CLOSED duas vezes para não correr o risco de ficar trancada. Clara chegava a ser paranóica com algumas coisas. Tinha diversas manias, na sua casa antes de dormir, verificava pelo menos umas três vezes se tinha fechado a porta. Gostava de tirar todos os aparelhos da tomada e sempre fechar o registro do gás antes de sair.

Após terminar mais uma das suas verificações, enfim pode relaxar. Abaixou a calça, sentou no vaso e com os braços apoiados nas pernas repousou seu queixo sobre os punhos.

Naquele instante ela pôde ouvir passos. Alguém andava rapidamente pelo corredor. A pessoa estava ofegante e de repente bateu a porta e travou. Clara ficou arrepiada, alguém tinha acabado de entrar no banheiro ao lado.

Ela tentou se distrair, mas o som que vinha do outro banheiro a deixava aflita.

Clara podia ouvir a respiração ofegante que saia do banheiro ao lado.

Ela estava com medo, mesmo assim decidiu ver o que estava acontecendo. Subiu em cima do vaso e se apoiou na divisória, tentando espiar.

Viu a menina de cabeça baixa, chorando, com as duas mãos na nuca.

- O que foi? Precisa de ajuda?

A menina levantou a cabeça e estendeu as mãos cheias de sangue.

- Elisa?!?

Nesse momento, ela perdeu o equilíbrio e caiu. Ela estava no vestiário, mas tudo era diferente. Viu um amontoado de meninas conversando. E não acreditou quando viu aquela menina cruzar o corredor. Elisa...

Ela estava entrando no banheiro.

Clara ficou imóvel, olhando tudo o que acontecia ao seu redor. Viu as meninas retirarem as folhas dos cadernos e atearem fogo na porta.

Ela gritou, tentou ajudar, mas nada acontecia. Era como se ela não estivesse lá, era como um pesadelo.

Aproximou-se das meninas que se amontoavam no banheiro ao lado para ver o desespero de Elisa. Viu a maldade estampada no rosto de cada uma delas. Ao perceber que o fogo aumentava as meninas se afastaram do banheiro. Menos uma. Ela estava pendurada no vaso. Clara não hesitou e subiu ao seu lado. A menina dos cabelos cacheados estendeu a mão na direção de Elisa.

- Elisa aqui em cima! Suba por aqui! – gritou

O sistema de incêndio foi acionado, o alarme ecoava pela escola inteira.

Elisa apoiou-se no vaso sanitário, tentando atravessar a divisória.

- Isso Elisa! Força! - gritou desesperada – Você está conseguindo!

Elisa ficou na ponta dos pés, chegando ao limite e segurou firme a divisória até alcançar a mão da menina. Mas, a menina pregava a ultima peça em Elisa. No momento que Elisa conseguiu segurar sua mão ela puxou. Sofreu uma forte alavanca e caiu.

A menina deu um largo sorriso, virou para trás e Gritou:

- Óh meu Deus! Ela caiu! Ela caiu!

Sentindo uma forte dor na cabeça Clara se levantou. Abriu a porta devagar e espiou pela fresta. Não havia ninguém no corredor. Cautelosa, saiu do banheiro sem fazer barulho. Não havia nada no outro no banheiro, e todas as outras portas estavam abertas.

- O que você quer de mim? O que você quer de mim? O que você quer? – gritou

Foi até o lavatório, abriu a torneira, encheu as mãos de água e jogou no rosto. No intervalo, Clara contou para suas amigas o que tinha acontecido.

- Meu Deus... Parecia tão... real... Eu vi, ela estava no banheiro. Ela morreu aqui... Ela morreu no banheiro.

- Isso é loucura. Eu já falei pra você. – disse Regina

- Foi o jogo! Nós a despertamos com o jogo. Mas porque ela me atormenta? O que ela quer?

- Eu acho que sei o que podemos fazer, vamos conversar com a Dona Helena. Ela trabalha há muito tempo aqui, se Elisa um dia botou os pés nesse colégio ela pode nos ajudar.

As meninas seguiram a idéia de Ana. E procuraram a inspetora.

Entraram na sala e Clara começou a contar tudo o que tinha acontecido.

Dona Helena estava espantada. Não conseguia esconder sua perplexidade perante o que ouvia.

- Meninas... Não sei como dizer isso pra vocês. Mas o que a Clara acaba de contar, realmente aconteceu. Elisa estudou aqui nesse colégio há quarenta anos atrás, eu tinha acabado de entrar aqui. Tinha alguns meses de escola quando aconteceu um terrível acidente. Houve um principio de incêndio no banheiro e Elisa tentando escapar acabou tendo um traumatismo. Ela já estava morta quando socorremos. Foi tudo muito rápido.

- Então é verdade? Essa Elisa existiu mesmo? Não quero entrar naquele banheiro tão cedo. – disse Ana

- Sim! Querem ver a foto dela? Nós temos todos os prontuários.

A inspetora Helena abriu o extenso arquivo aonde guardava fichas de alunos de cada ano.

- Hummm... Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito... Achei! Turma de sessenta e um.

Ela retirou as fichas e colocou em cima da mesa.

- Aqui está. Essa era Elisa. Ela era um anjo. Um amor de menina.

Clara pegou a foto e ficou olhando atentamente.

- Foi ela... Agora tenho certeza. Essa é a garota que tenho visto.

Dona Helena pediu para as outras meninas saírem da sala. Sentou ao lado de Clara e disse:

- Minha filha, eu disse para vocês não fazerem esse tipo de brincadeira. Mexer com pessoas que já se foram sempre atrai coisa ruim. Vou pedir para o Padre Lauro fazer uma oração no vestiário. Mas me promete que não vai contar para mais ninguém o que me disse. Não quero tumulto na escola. – disse a inspetora.

Clara concordou, mas ao sair, uma das fichas chamou sua atenção.

”Meu Deus... Foi essa garota que eu vi no banheiro. Ela não ajudou Elisa”.- pensou

Olhou atentamente para a foto e disse:

- Dona Helena, quem é essa?

Ela deu um enorme sorriso.

- Ah, sim! Não consegue reconhecer?

- Não pode ser. Jura?

- Sim, minha linda... Sim!

Clara saiu da sala muito confusa. As visões que teve pipocavam em sua mente. Saiu correndo pelo corredor e entrou com tudo na sala da diretora.

- O que é isso menina? – perguntou a diretora.

- Desculpa Dona Shirley. Mas a senhora... Precisa me ajudar. A Dona Helena...

- Calma...

- Não! Eu... Estou bem... Mas a senhora precisa vir comigo. – disse Clara ofegante

- Mas o que está acontecendo?

A diretora acompanhava os largos passos de Clara, sem entender o que acontecia.

- O que aconteceu? Diga o que aconteceu. - perguntou a diretora.

Mas Clara não respondia, andava cada vez mais depressa até parar em frente ao vestiário.

- Aqui! Ela está aqui... Entre, por favor...

As duas entraram no vestiário, a diretora acompanhava os passos de Clara.

- No banheiro, ela está no banheiro!

As duas entraram no corredor dos banheiros.

- Maldito zelador! Quantas vezes eu preciso pedir pra ele trocar essas lâmpadas.

- Ela está naquele banheiro! – disse Clara

- Não tem ninguém aqui menina! – respondeu a diretora ao abrir a porta.

Clara empurrou a diretora para dentro do banheiro e a porta se fechou. Ela se levantou e tentou abrir, mas sem sucesso.

- O que você está fazendo? Menina estúpida! Você vai pagar por essa brincadeira. Vai me pagar! – gritou enquanto socava a porta.

- Está com medo agora, senhora diretora? Engraçado... Achei que gostasse de brincar no banheiro. Você não gostava? Você e suas amigas?

- Cale essa boca! Você será expulsa! Menina insolente... Abra essa porta!

- Isso não te lembra alguma coisa?

- Não sei do que você está falando. Você deve estar maluca! Abra essa porta!

De repente um som estranho invadiu todo o vestiário. As portas dos armários começaram a bater. O ar ficou pesado e frio...

- Ela está chegando Dona Shirley. Consegue sentir? Elisa está aqui!

- Isso é loucura! Ela está morta! Elisa está morta!

- Sim ela está morta... Mas ela quer acertar as contas com alguém que lhe fez mal... Uma ex-aluna da escola. Uma garota mimada que adorava fazer maldade. Consegue se lembrar diretora?

A diretora estava cada vez mais desesperada. De repente ela sentiu algo agarrar sua perna. Ela olhou para baixo e viu Elisa saindo de um imenso buraco que se abria no chão. Ela estava com o rosto coberto de sangue. A diretora tentava se desvencilhar, mas não conseguia. Sentia seus ossos serem quebrados pela pressão exercida. A diretora gritou por socorro, e agarrou-se no vaso, mas já não conseguia conter a força de Elisa. Ao olhar para cima pode ver Clara, espiando tudo pela divisória.

- Me ajude... Por favor... Por fa...

A diretora foi completamente engolida pelo buraco, que então se fechou.

A diretora jamais foi encontrada. Seu desaparecimento ganhou notícias diárias em vários jornais e emissoras por um longo período.

Alguns meses depois:

Clara estava jogando handebol em um campeonato na escola. No calor da partida uma menina lhe acertou o rosto com uma bolada.

- O que foi sua idiota? Não gostou? Fracote!

Clara se virou para a arquibancada e lá estava Elisa observando atentamente. Ela então voltou seu olhar para a garota, deu um sorriso e disse:

- Vamos resolver isso, eu e você... Após a aula no vestiário.

FIM